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quinta-feira, 23 de março de 2017

Depois do Paraíso - Episódio III


A morte de Kabush


 

 
 
Episódio escrito por Ricardo Netto.
 
Imagem da internet.
 
 
 
 
Depois de se aventurar na cidade de Uaset, a serpente decidiu ficar mais um período no deserto, alimentando sua alma e seu corpo com o sangue das caravanas de beduínos que cruzavam aquelas areias quentes de dia e frias à noite.
Deixou o tempo passar vivendo em cavernas e tornou-se uma lenda de um demônio que atacava as caravanas. Ao decidir retornar para a civilização tomou o caminho da capital, a cidade  do Cairo, que nessa época já havia se tornado a província mais próspera do império e por consequência, sua capital.
O quarto era simples, mais para passar algumas noites até se estabilizar de vez, estava de bom tamanho. Apesar de possuir ouro, prata e bronze suficientes para comprar aquele pardieiro, não queria naquele momento chamar a atenção para si. Era uma forasteira e ostentar fortuna, seria um erro. Deitou-se na cama velha e cobriu-se com aquelas peles de carneiro para aplacar o frio. Estava cansada da viajem que fizera até ali. O coração e os pensamentos estavam tomados de um sentimento estranho. Apesar de possuir o dom da vida eterna sentia-se a pior criatura que vagava pela Terra. Era a única que não tinha semelhantes, precisava da alma humana para manter-se viva e teria que fugir para todo o sempre. Os Elohins tinham castigado ela com maior peso. Adormeceu por fim.
Pela manhã o sol parecia querer deitar-se com ela na cama, obrigando-a a levantar-se. Por um momento sua mente foi tomada por uma imagem que havia ficado em um passado remoto. A frondosa árvore de todos os conhecimentos estava novamente diante de seus olhos. Respirou fundo e piscou os olhos para dissipar aquilo de sua cabeça. Olhou ao redor e se deu conta de que estava naquele quarto pobre de uma pensão qualquer na periferia do Cairo. Sentiu uma espécie de alívio. Não gostava de relembrar o Édem, aquele lugar que a princípio fora lhe dado como presente dos deuses tornara-se símbolo maior de sua maldição.
Já na rua, misturou-se com a ferveção do povo, andou sem um destino certo, com o sentido apenas de conhecer aquele lugar fascinante. Sua atenção foi atraída na direção de um circulo de pessoas animadas que batiam palmas para alguma atração que estava no centro. Embrenhou-se discretamente até conseguir ter uma visão do que estava acontecendo ali. Dançarinas que remetiam movimentos sinuosos de serpentes em suas cinturas levaram suas lembranças para a cidade de Uaset, onde estivera a muito tempo atrás. Lembrou-se do servo daquela taberna que deixara sua alma intrigada por ter sido o único que conseguira resistir a seus encantos sedutores. Nem na noite seguinte conseguira levá-lo para a cama como imaginara.
“Um imbecil”. – Pensou.
Voltou sua concentração para o que estava ocorrendo diante de seus olhos naquele momento. As duas dançarinas eram lindas, mas não mais belas do que ela. Apesar de não estar usando as roupas adequadas, lançou-se no centro do círculo e começou a dançar também. Seus movimentos eram milimetricamente precisos e roubou a atenção para si.
Um mercador rico de porte robusto e pele de ébano a encarou nos olhos. Ela parou a dança e ficou de frente para ele, sabia como ninguém jogar com a sedução, sua maior arma.
Parecia que o mundo havia parado para os dois e que estavam sozinhos ali bem no centro daquele turbilhão de pessoas. Ele a segurou pelo braço com força e com carinho ao mesmo tempo.
- Venha comigo. – Disse. – Tirando-a do centro da roda e levando-a consigo até onde estavam seus servos. Astuta como sempre, se deixou levar, para ver até onde aquela aventura ia dar.  Esse jogo fazia o sangue dela ferver. Entraram no andor feito de Cedro do Líbano e coberto com linho fino. Os escravos içaram o veículo nas costas e saíram no meio da multidão.
 
 
 
Imagem da internet.
 
 
 
Era uma bela casa no centro da capital, o dono sem dúvida possuía muito ouro. Ela aguardava o homem, sentada na bela cama da alcova. Fora roubada da rua para ser sua mulher. O poder de atração dela sobre os homens fazia com que eles tivessem atitudes extremas, era sua arma de sobrevivência. Estava coberta apenas com um fino tule, mostrando todas as curvas de seu belo corpo, os cabelos vermelhos estavam soltos, cobrindo os seios propositalmente. A garganta ardia com sede de sangue, não resistiria mais uma vez quando o cheiro de testosterona invadissem suas narinas de uma vez por todas.
Kabush entrou no quarto embriagado pelo cheiro daquela fêmea, nunca tomara para si uma mulher de forma tão impensada, quanto havia feito com Lilith. Mas quando a enxergou no centro daquele círculo dançando daquela forma, não resistiu. Apossou-se dela e agora estavam um diante do outro. Aspirou para dentro dos pulmões todo o odor daquele ambiente e a excitação foi inevitável. Os olhos da serpente brilharam observando aquela presa, leves tons de vermelho trocaram a cor de suas íris. O homem estava tão poderosamente seduzido que nem se deu conta do perigo. Por um impulso, trouxera para dentro de sua casa a própria filha do Demônio.
Ele se jogou sobre a cama e ela se posicionou sobre o corpo dele, os caninos se mostraram presentes acentuando ainda mais sua sede. Rápida e precisa como sempre ela sugou o sangue do infeliz até a última gota. Kabush soltou um gemido intenso de prazer e depois caiu exausto, nem percebeu que sua jugular havia sido invadida.
Lilith olhava o horizonte pela janela do quarto, o homem já estava adormecido fazia uma hora. Tinha apenas poucos minutos para decepar sua cabeça antes que ele se tornasse semelhante a ela. Pela primeira vez cogitara a possibilidade de deixar sua vítima viva.
Não posso. – Falou para si mesma.
Andou até a entrada do quarto, onde duas espadas ficavam sobre a porta, uma de cada lado, servindo de adornos. Pegou uma delas e com apenas um golpe decepou a cabeça do homem. Não podia deixar sobrevivente igual a ela no mundo. Isso seria um privilégio que daria para quem realmente merecesse. Haveria a hora o local e as pessoas certas para aquele feito.
Com o desaparecimento repentino de Kabush, a serpente tomou posse daquela e de todas as propriedades pertencentes ao mercador, incluindo seus escravos. Aquela casa seria um bom lugar para ela estabelecer moradia ali no Egito por um longo tempo. Começou então a fazer apresentações com suas danças, chegando sua fama até o grande rei do Império, o Faraó.
Já fazia um tempo que ele havia saído de Uaset, no encalço da serpente, desde aquele dia em que a tinha encontrado na taberna de Abnar e que ela tentou seduzi-lo. Não foi daquela vez que conseguira cravar um punhal no peito dela, mas com certeza os rumores e os ventos que trouxeram seus pés até o Cairo, não foram em vão. Lilith nem poderia imaginar em seus piores pesadelos que estava sendo perseguida por um “guardião”. O servo de olhar tímido era na verdade um anjo exterminador.




Continua...



Ricardo Netto é administrador desse Blog, escritor do livro: Os senhores das sombras - O legado de Lilith.
Idealizador e revisor dessa Websérie: Depois do Paraíso.
Arquivo pessoal

Arquivo pessoal.



 


 

Um comentário:

  1. Maravilhoso como sempre, história incrível...parabéns!!!!

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