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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

They are above Us!


Contos Ufológicos

 
 
Imagem da internet.
 
 
 
 
Acordou aquela manhã como fazia sempre. Estava no auge dos seus quarenta anos, nem passou pela sua cabeça que aquele seria seu último, também, como poderia saber. Ninguém sabe.  A pequena kitnet, onde morava sozinho a mais ou menos, quatro anos, desde que separara de seu ultimo relacionamento. Estava como de costume com a aparência de quem havia sido visitada por um maremoto. A organização definitivamente não era sua principal qualidade. Méricles era um homem de uma beleza comum, estatura alta, robusto, com uma pequena barriga protuberante, da qual dizia sentir orgulho. Os olhos eram castanhos e expressivos. Levantou nu e caminhou até o banheiro onde pretendia tomar um banho para despertar do sono. Tropeçou em uma agenda preta que a princípio imaginou não conhecê-la. Ou melhor, ela não fazia parte de sua vida mesmo. Apesar de viver em um caos de desorganização, conhecia cada centímetro daquela bagunça. Resolveu ignorar aquele artefato e foi fazer a toalhete.
Saiu do banho com a toalha enrolada na cintura, parou diante daquela pequena agenda e pegou-a em suas mãos. Estava praticamente em branco não fossem duas datas marcadas com tinta azul. (Cinco de Janeiro de 1900 e cinco de Janeiro de 2017). A última data era exatamente aquele dia no qual acabara de acordar. Não era dado a certas coisas, mas sentiu um arrepio percorrer seu corpo dos pés a cabeça. Sentiu um pequeno choque na mão e soltou a agenda no chão. Decidiu não se impressionar com aquilo e continuou sua rotina. Vestiu as roupas, tomou o café rápido, saindo na sequência.
A rua estava naquele frenesi de sempre, pessoas indo e vindo freneticamente, sem tempo de observarem uns aos outros. Chegou à Estação República do Metrô e desceu as escadas fixas, apressado, ultrapassou a catraca quase que roboticamente, era a rotina do dia a dia.
Do nada ele lembrou-se das datas marcadas naquela agenda. O trem abriu as portas e ele foi empurrado pela multidão, entrou mesmo sem querer, naquela urgência diária de todos. Desceu na estação Barra Funda e andando feito gado, seguiu o fluxo até a saída. Os olhos escureceram por milésimos de segundos, o suficiente para seu corpo ser lançado ao chão.









05 de Janeiro de 1900.



Chegou a redação do jornal onde trabalhava com um sorriso no rosto, o envelope que trazia nas mãos, estava recheado com fotos reveladoras sobre visitas de OVINS no céu da cidade, não tinham agora como taxá-lo de louco. Era obcecado sim, mas louco não. O chefe da revista o encarou nos olhos, estavam no corredor. O olhar daquele homem magro com cara de abutre o convidou a entrar em sua sala.
- Feche a porta – Disse o chefe seco, sentando-se na cadeira rasgada, por traz daquela escrivaninha velha. Ele ficou em pé com o envelope nas mãos, o sorriso havia diminuído, mas ainda estava em seus lábios de alguma forma.
- Muito bem! Vai querer quanto por essas fotos? – Perguntou sem rodeios.
- Como assim vou querer quanto pelas fotos? – O sorriso fugiu do rosto. – Estou a meses trabalhando nessa matéria e agora que tenho algo concreto para provar minha teoria...
- Não trabalhamos com teorias aqui nessa revista meu caro! E além do mais, você ficou com as pautas ao qual estava encarregado atrasadas. Por conta dessas suas caças inusitadas a extra-terrestres. O que você quer provar com isso?
- O que qualquer jornalista daria a vida para provar. A existência de vida inteligente fora dessa nossa bolinha azul. – Os belos olhos verdes brilharam.
- E você acha que eu seria louco de publicar isso na minha revista. Nossa linha de abordagem é outra, meu chapa!
- Então tudo bem chefe! Saio daqui agora e vendo essas fotos e essa matéria para a concorrência, acho que vão ter interesse em publicar.
- Quem mais sabe sobre essas fotos? – Perguntou o chefe.
- Ninguém, além de eu e você! – Falou rispidamente. – Mas já que essa revista não aborda esse tipo de assunto, tudo bem! Acho que alguém vai se interessar.
O homem magro levantou-se calmamente, ficou diante do jornalista e o encarou nos olhos.
- Você não sai dessa sala com esse envelope para lugar nenhum!
Por um instante ele imaginou que os olhos daquele magrelo haviam se transformado em olhos de lagarto. Ficou gelado e sem reação.
- O que disse? – Perguntou com uma mistura de ousadia e medo.
- Isso mesmo que você ouviu. Marque bem essa data, hoje é o dia de sua morte meu caro!
Ele abriu a porta, trêmulo e apressado. Saiu no corredor sentindo um sufocamento no peito. Em poucos minutos seu corpo estava jogado no chão do corredor. Os colegas de redação aglomeraram-se ao seu redor, curiosos. O chefe saiu apressado de sua sala.
- Alguém, por favor! Chame uma ambulância! – Gritou. – O envelope marrom que há alguns minutos pertencia ao morto estavam protegidos por suas mãos magras de réptil.









05 de Janeiro de 2017. (24 hs depois...)
 
Os olhos abriram-se lentamente deixando a luz entrar para se acostumar com o ambiente. Era uma sala quadrada, branca, com medidas exatas que remetiam a um cubo. Estava amarrado a uma espécie de mesa cirúrgica. O coração acelerou. Conhecia aqueles lagartos malditos que observavam em pé suas primeiras reações após abrir os olhos. Lutara toda a vida e em todas as vidas que lhe fora concedida para provar a existência deles. Mas sempre era aniquilado de uma forma ou de outra. No entanto não sabia por qual motivo estava ali agora. Vivia como um cidadão qualquer no anonimato de sua insignificante e desorganizada Kit no centro velho de São Paulo, não tinha mais nenhum interesse de provar a existência daqueles vermes.Aliás nem se lembrava mais deles. Mesmo assim estava ali outra vez. Provavelmente havia morrido mais uma vez, agora na saída agitada daquela estação do metrô. Lembrou-se da primeira vez que isso ocorreu, no corredor daquela revista, que na verdade era um covil daqueles animais.
- O que querem dessa vez? – Gritou.
- Cale-se maldito! – Um dos lagartos aproximou-se. – Colocamos aquela agenda propositalmente naquele chiqueiro que você vive para lembrá-lo que tem um compromisso conosco. É o seu compromisso póstumo. Temos que garantir que vai manter essa maldita boca calada.
- Acha mesmo que tenho como concorrer com vocês? Os meus semelhantes tratam pessoas que tiveram experiências de abdução como se fossem loucos ou idiotas. Já me cansei de tentar provar que estão infestados em nosso planeta. Desisti. E acho que vocês que sabem tudo deveriam saber disso. Por que me trouxeram até aqui novamente, minha memória já havia apagado a existências de vocês.
- Você sempre nos surpreende! Mesmo vivendo como um cidadão pacato. Ou mesmo deletando a gente da sua memória. Uma hora aquele pequeno lampejo de herói pode fluir em sua alma Por isso nunca é demais lembrar. Agora durma.
Méricles adormeceu na sequência.
- Sr. Méricles! Está se sentindo melhor? – Perguntou uma enfermeira velha e feia que estava de pé diante dele.
Estava deitado em uma maca em um corredor de algum Pronto Socorro da cidade.
- Eu não morri dessa vez então? – Perguntou para si. Porém, a profissional da saúde escutou.
- O que disse Senhor? – Ela retrucou curiosa.
- Nada, não disse nada. Respondendo sua pergunta estou melhor sim. Faz muito tempo que estou aqui?
- Vinte e quatro horas.
- Nossa!
- Aguarde só um instante, vou chamar um médico.
- Obrigado!
Meia hora depois um homem gordo e com uma roupa branca encardida, aproximou-se com uma prancheta na mão direita e uma caneta na outra.
- Bom dia Sr. Méricles! A enfermeira me disse que você está sentindo-se melhor!
- Sim estou.
- Ótimo! Aqui estão todos os seus exames que fizemos desde sua chegada ontem pela manhã. Por incrível que pareça, estão todos dentro dos parâmetros normais.
Sentou-se na maca lentamente.
- Obrigado doutor...
- Juno. – Respondeu o médico. – Não por isso! Cuide-se, dessa vez foi apenas um susto. Porém na próxima pode ser fatal. Acho melhor observar melhor sua saúde.
Falando isso saiu corredor afora, parou por um instante e olhou para trás na direção do paciente que o observava. Os olhos do médico reviraram-se nas órbitas mostrando quem exatamente ele era.
“Esses vermes, estão por toda parte”. “Afinal de contas o que querem de mim, que me lembre ou que me esqueça que eles existem?”
A enfermeira chegou com uma sacola com as roupas do paciente dentro dela. Ele levantou-se lentamente e entrou no banheiro para se trocar. Quando estava pronto saiu dali para o lado de fora do hospital.  Em sua memória ele carregava informações que não poderia compartilhar com ninguém.
 
 
 
Esse conto surgiu após eu ver um post no facebook e comentar com uma das minhas leitoras (Ana Paula). "Isso dá uma bela ideia para um conto".
 
 
 
Ricardo Netto é administrador desse Blog.
 
Escritor do livro:
Os senhores das sombras - O legado de Lilith
 
Arquivo pessoal.
 
 
Idealizador e revisor da Websérie:
Depois do paraíso.
 
Imagem da internet.
 
 

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