domingo, 8 de janeiro de 2017

Depois do Paraíso - Episódio I


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O Deserto, o vento e o sangue. (Ricardo Netto).



A caverna onde estava confinada era escura e fria, em algumas horas a metamorfose estaria completa.  A partir daquele dia, todas as vezes que passasse por aquela experiência, sentiria dores horríveis por todo o corpo.
Um ano havia se passado, desde que fora expulsa do Édem pelos Helohins. Seu jogo de sedução, que levou junto consigo, para a degradação, seu ex-marido Adão e atual mulher deste, Eva. Custara-lhe uma maldição infame que teria que levar para o resto de sua vida. Sentia-se fraca, devido o confinamento ao qual fora obrigada a ficar na gruta de cristais na cidade sagrada dos elfos, Galmatama. De onde conseguira fugir com a ajuda do arcanjo decaído, Ben-Shakar.
Estava sozinha agora, destinada a arcar com as responsabilidades de seus erros. O gosto de terra e areia do deserto ainda atormentavam suas papilas gustativas. O corpo de serpente por fim, abandonara sua vida, mas voltaria àquela forma quando aquele círculo completasse cem anos.  Tocou-se, como não estivesse acreditando que sua bela forma feminina havia voltado. Sentiu o frio do deserto, invadir o ambiente onde estava. Um lampejo de vento tomou conta do corpo dela como se quisesse possuí-la . Totalmente nua e com os belos cabelos ruivos sensualmente desordenados, saiu para o lado de fora. O céu estava cravado de estrela.
De repente, um desejo estranho invadiu sua boca, começou a salivar de uma forma como nunca antes. Sabor de sangue, sangue humano. As narinas aguçaram-se por um odor que vinha de longe. Todos os cinco sentidos ficaram alertas. Um desejo novo e uma necessidade estranha dominaram sua alma de forma quase incontrolável. Não entendia exatamente do que se tratava, era por certo, um novo sentimento maldito. Os olhos começaram a arder como brasas de fogo, se pudesse vê-los, poderia notar que estavam estranhamente vermelhos. O gosto de sangue aumentou. Por sua vez, os caninos cresceram lentamente. Sentiu medo. A sensação de quando comeu os frutos proibidos do Édem voltou a invadir sua alma naquele momento.
“O que mais estaria reservado para ela depois de rastejar por aquele lugar insólito durante aquele ano inteiro”. – Pensou.
Mais uma vez o vento lambeu seu corpo, definitivamente ele queria aquele corpo esguio e torneado de curvas sedutoras. Uma excitação repentina a fez tremer. Um desejo tomou conta dela. Soltou um grito que estava contido em sua garganta. O som parecia mais um uivo, um uivo cheio de libido. Tremeu mais uma vez. Precisava aplacar aquele desejo repentino.

 
 
 
 
Algumas cabanas feitas de couro de animais ao redor, no centro do acampamento improvisado uma fogueira para aquecer o frio, ao redor dela, beduínos. Caminhantes do deserto que andavam por aquele local, conduzindo suas mercadorias que vendiam nas cidades próximas. Em outro canto, sentados, camelos descansavam do dia pesado do sol escaldante, sob a brisa gelada da noite. O deserto é assim, dias quentes, noites geladas.
Moraeb levantou-se e distanciou um pouco dos demais. Era um homem alto e robusto, olhos castanhos claros e um belo rosto quadrado emoldurado por uma barba negra e farta. A cabeça estava ornamentada por um turbante preto, que deixa apenas os olhos expressivos à mostra, a túnica que cobria seu corpo inteiro era da mesma cor e tecido. Olhou para o alto admirando a luz da lua que brilhava no centro do céu cravejado de estrelas. Porém, quando baixou a visão para o horizonte, o que lhe chamou a atenção, foi uma silhueta feminina que caminhava lentamente na direção onde se encontrava. Olhou para os companheiros que no momento estavam ocupados com assuntos triviais. Na verdade nem haviam notado seu distanciamento.
Lilith caminhava como se estivesse flutuando sobre areia prateada, envolta por uma névoa de poeira do mesmo tom, que se agitava ao seu redor, pelo atrito do seu corpo com o vento.
O homem ficou completamente hipnotizado a seus pés, nesse exato momento, perderam o controle do seu cérebro. Ficaram um diante do outro, ele, embriagado pela figura dela. E ela por sua vez, enlouquecida pelo cheiro de testosterona e sangue dele. Ambos em um êxtase e uma necessidade diferente. Quando Moraeb se deu conta, estava há uma distância considerável dos demais. Os olhos dele brilharam, ao ver aquela mulher completamente nua diante dele. Os dela estavam vermelhos, diante de sua primeira presa. A excitação do infeliz era tanta, que nem notou aquele detalhe nefasto.
O odor do sangue ficou mais intenso. Lilith sentiu um sabor em sua boca, que só havia sentido ao ficar curiosa diante dos frutos proibidos do Édem.
O beduíno despiu-se de sua roupa com urgência, o corpo tremia de desejo. Sem pensar ou dizer uma palavra sequer agarrou-a em seus braços fortes. Ela não resistiu. Fizeram sexo com toda intensidade sobre a areia. Em algum momento daqueles movimentos animalescos, ela se colocou sobre o corpo dele. Sem entender ainda a necessidade de sua alma amaldiçoada, mordeu a jugular dele sugando-lhe todo o sangue. Experimentou aquele êxtase de roubar a alma de alguém pela primeira vez. O prazer era muito maior que qualquer orgasmo. Ele soltou um gemido seco de prazer, em seguida um grito de pavor. Só então percebeu que estava sendo dominado por um demônio. Mas já era tarde!
O eco do seu grunhido chegou aos ouvidos dos seus companheiros, que só então notaram sua ausência. Ficando todos em alerta, por acharem se tratar de alguma fera do deserto. De repente, um silêncio mortal dominou a noite.
Lilith como que por instinto, quebrou o pescoço do homem que numa tentativa vã tentou contê-la. Naquele estado, ela possuía a força de cem homens. Saiu dali na direção dos demais, o sangue de sua primeira caça não fora o suficiente para aplacar sua sede. Precisava de mais.

 
 
 
 
Os quatro foram pegos de surpresa com a presença daquela bela mulher ruiva e nua. Pararam diante dela, e por um momento, esqueceram até os gritos que haviam escutado há minutos atrás.
Janurhi, um beduíno, alto e magro, mostrou suas instantâneas intenções, buscando o apoio dos demais, com um olhar malicioso dentro de seus olhos verdes. É claro que os outros três foram tomados pelo mesmo pensamento.
“Os deuses do Egito haviam premiado suas almas com a presença daquela bela fêmea naquela noite, depois de um dia inteiro de caminhada no sol escaldante do deserto”.
Lilith iniciou um sorriso sestroso em seus lábios. Não deixando de ficar com os sentidos alertas.
“Imbecis” – Pensou.
Kalel, o mais forte entre eles, pegou-a por traz, segurando-a em seus braços com a mão direita. Com a esquerda, prendeu seus cabelos. Ela ficou quieta, não reagiu. Os outros soltaram uma gargalhada cheia de malícia.
- Pode me soltar! Se quisesse resistir, não estaria aqui. – Disse com uma voz aveludada e sedutora, de quem está disposta a se divertir.
Ele a largou lentamente, não sem antes beijar-lhe a nuca com volúpia. Tiraram as vestes apressados, os corpos estavam dominados pelo desejo e tomados pela libido. Fizeram uma espécie de círculo ao redor da mulher. Ela aguardava em silêncio, observando as reações de cada um deles, esperava o momento certo para atacar, usando todo seu instinto de serpente, abaixou-se e se posicionou como se fosse dar um bote. A onda de calor que havia tomado seu corpo há horas atrás, voltou a possuí-la. Os olhos ficaram feitos brasas e os caninos aumentaram de tamanho. Quando levantou novamente o rosto na direção dos homens, seu belo semblante havia dado lugar a uma figura assustadora.
- É um demônio do deserto! Enviada pelo deus Seth! – Gritou Janurhi.
Antes que eles tivessem tempo de reação ela levantou-se, atacou um a um com uma força e uma velocidade descomunal. Em menos três minutos, os quatros estavam mortos e jogados no chão. Sugou todo o sangue de sua última vítima e soltou um gemido olhando na direção da lua, que banhava seu corpo.
Quando por fim, saiu do estado de êxtase, entrou em uma das cabanas, pegou uma espada e voltou para o lado de fora. Olhou os corpos jogados na areia e insinuou um sorriso macabro nos lábios. Sem saber exatamente por que estava fazendo aquilo, decapitou os quatro. Pegou uma das roupas que estava no chão e vestiu-se. No meio dos pertences dos beduínos, pedras preciosas e moedas de ouro, dentro dos alforjes, pegou tudo para si. Montou em um dos camelos e seguiu na direção da capital do antigo Egito. Ao nascer do sol, avistou ao longe as pirâmides.
 
 
 
 
 
Continua....
 
 
 
 
 
Ricardo Netto é o administrador desse Blog
E autor do Livro: Os senhores das sombras- O legado de Lilith.
 
 
 
 
 
 
 

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