segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Degustação do livro: Os senhores das sombras - O legado de Lilith


 

 

 

Os senhores das sombras

 

Livro I

 

O Legado de Lilith

 

 

 

 

 

 

 

 

Ricardo Netto.
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo Zero.

 

 

A origem.

 

 

Durante eras eternas a Trindade dos Elohins reinou absoluta sobre toda forma de energia e vida do universo existente. Eram seres belos e absolutamente idênticos, tinham a imagem e semelhança dos homens, mediam dois metros e vinte de altura, os corpos eram formados por uma luz branca e intensa e essa energia se concentrava com maior intensidade na região cefálica, onde pequenos pontos de luzes coloridas se movimentavam freneticamente, escondendo seus rostos. Tinham cabelos negros, encaracolados e à altura dos ombros, rostos quadrados e joviais, olhos de felinos, bocas bem desenhadas e a pele clara como a neve. A cada período de vinte e quatro horas, ficavam com os rostos aparentes por rápidos cinco segundos. Vestiam roupas de linho branco em forma de uma segunda pele, que os cobria do pescoço aos tronozelos, na região do tronco uma armadura de ouro cravada de minúsculos e milhares pontos de diamantes na parte frontal. Nos dedos anelares de suas respectivas mãos direitas, usavam um anel de ouro com o número sete cravado com pequenos rubis. Nos pés, calçavam um artefato anatômico, confeccionado de uma malha tecida com fios de prata e ouro, promovendo conforto e liberdade para as articulações. A única peça que os distinguia um do outro, era a túnica sobreposta, com capuzes que usavam em tonalidades diferentes, eram de seda e cobriam da cabeça aos pés, tocando o chão. O primeiro se vestia com uma túnica de cor prateada, o outro em um tom de azul royal e o terceiro utilizava a de cor branca. Eram seres poderosos e dominavam toda fonte de vida do universo.  

O mundo até então conhecido era povoado por criaturas dotadas de poderes sobrenaturais. Anjos, arcanjos, querubins e elfos das mais diferentes castas, conviviam em perfeita ordem e harmonia. Todos, submissos e obedientes a grande força geradora da vida, Os Elohins.

A Terra era inóspita aos seres humanos, que ainda não haviam sido criados. Povoada apenas por bestas, onde a lei do instinto de sobrevivência era soberana.

Houve então um fato que mudaria para sempre o destino do universo. Um querubim da mais alta linhagem, conhecido como, Filho da Alva, foi dominado por um sentimento antes não conhecido, a ambição. Durante milênios, astutamente e em silêncio, foi recrutando adeptos, convencendo-os de que deviam se rebelar contra a Força Maior. Quando imaginou estar com um número suficiente de soldados, partiu com seu exército, para guerrear contra os Elohins. Foi a primeira grande batalha, conhecida como, a Guerra dos deuses.

Do outro lado, liderados pelos arcanjos Miguel e Muriel e com um efetivo muito mais numeroso partiram em confronto direto contra o levante dos rebeldes. Também contaram com o apoio dos melhores arqueiros do universo, os Elfos. Durante um período de mil anos ou mais, lutaram incansavelmente em batalhas violentas, havendo perdas consideráveis de ambos os lados. Até que em uma última tentativa do grupo de rebeldes, o grande líder, foi capturado, preso e levado finalmente à presença da Grande Força, os Elohins.

Não havendo arrependimento por parte do Filho da Alva, ele então, foi amordaçado e precipitado abismo abaixo, seus soldados e adeptos foram capturados e presos para sempre no lado obscuro do universo.

Ben-Shakar, como ficou conhecido desde então, caiu sobre a Terra, com a força de uma grande bomba atômica, causando o caos e a destruição total de toda forma de vida existe. O planeta ficou inabitável por um longo período de tempo. Os mares e oceanos invadiram a porção seca e tudo ficou submerso.

De tempos em tempos, os Elohins desciam e andavam sobre as águas, para decidirem o que iriam fazer com aquela pequena poeira perdida do universo.

 

 

 

 

O primeiro som foi o do coração, batidas fortes e ritmadas. Em seguida, acordaram como quem sai de um afogamento, puxando para dentro de suas narinas todo oxigênio possível para preencher os pulmões. Abriram os olhos juntos, vendo o céu e o sol pela primeira vez. As pupilas dos olhos foram aos poucos absorvendo a luz ambiente ao redor.  Estavam deitados na grama, que ainda estava molhada pelo orvalho da manhã. Seus corpos estavam nus. Lágrimas correram pelos seus rostos, como o primeiro sinal de vida humana, o choro. Ficaram ali deitados no chão, sem entender ou saber coisa alguma, apenas respirando ofegantes. Estavam suados e sujos de barro, com cheiro de terra molhada.

Olharam-se mutuamente, o coração acelerou mais uma vez, mas, menos agressivo nesse momento. Ficaram observando-se assustados. Tentaram emitir algum tipo de som para uma comunicação, mas não conseguiram. Apenas grunhidos, feito macacos excitados.

Sentaram-se, ficando um de frente para o outro. Sem uma coordenação motora muito boa começaram a se tocar lentamente, primeiro pelo rosto. A respiração estava forte, ainda não tinham domínio sobre ela.

Foram criados jovens, muito provavelmente adolescentes, entre seus dezoito e vinte anos. Ele era negro, alto, corpo musculoso, cabelos encaracolados, rosto quadrado, olhos castanhos e vivos, lábios levemente avermelhados, dentes brancos. Ela, ruiva, pele branca, corpo cheio de curvas, cabelos longos, olhos azuis, lábios carnudos. Os dois eram belos, a obra prima da energia criadora. Imagem e semelhança dos Elohins.

Provavelmente devem ter ficado por horas se tocando e se conhecendo.

- Lilith. – Balbuciou ele a primeira palavra que lhe veio a mente.

- Adão. – Respondeu ela.

Fitaram-se nos olhos e ficaram em silêncio, abraçados. Um sentindo a respiração e o coração do outro.

O céu avermelhado indicava o inicio do pôr-do-sol, que muito sem pressa descia por traz das colinas no horizonte distante. Era o sexto dia. Os dois, desequilibrados, tentavam ficar em pé. De mãos dadas, ensaiaram os primeiros passos, caíram, levantaram, até conseguirem dominar o equilíbrio. Ele a deixou para traz e apressou os passos andando em direção ao rio, ela o seguiu meio cambaleante. Entraram na água e tiraram a terra que cobria os seus corpos. Brincaram no rio feito crianças.

O lugar onde estavam, era bucólico. Árvores altas e frondosas cobriam o ambiente de sombras acolhedoras. Frutos e frutas das mais variadas espécies, animais silvestres e dois rios de águas cristalinas e puras. Era tudo mágico, surreal...

A energia divina brotava em cada grão de pó.” O paraíso, ou o jardim do Édem”. Era assim que eles o nomearam, quando começaram a desenvolver a fala de uma maneira inteligível.

Em um vale um pouco a frente, abaixo do planalto onde moravam, havia uma árvore de espécie rara, sua altura dava a impressão de tocar as nuvens e suas folhas refletiam a luz do sol quando a noite caia sobre elas. Era constantemente guardada por seres alados. Ao centro do planalto outra árvore não menos importante enchia os olhos com sua beleza sedutora, a cada século, produzia apenas dois frutos de tom perolado. Lilith e Adão eram proibidos de chegar próximo desse lugar, quando a árvore estivesse a produzir esses frutos, tendo isso como único limite imposto para os dois. Não seria tarefa difícil de cumprir, para quem tinha a vida eterna pela frente, como dádiva divina.  

O tempo útil de vida dos frutos era de apenas vinte e quatro horas.

 

 

 

 

Descobriram o sexo e os prazeres do amor a dois, tinham a libido aguçada, e a liberdade de amar sem culpa. Não conheciam o certo ou o errado, o bem e o mal. Essas limitações só seriam inventadas depois, pela raça humana. Eram jovens, vivos e tinham o universo inteiro para desvendar. Aprenderam a dominar os cinco sentidos a seu favor, nomearam tudo o que estava a sua volta, a energia criativa corria em suas veias como o sangue. Seriam eternamente jovens, eternamente felizes...

Lilith às vezes, gostava de recolher-se sozinha antes do pôr do sol para observar a noite se aproximando. Certo dia ficou sentada olhando de longe aquela árvore que ao cair da noite refletia a luz do sol, percebeu que por um pequeno espaço de tempo, os seres alados que a guardavam saiam e a deixavam só, apenas ela e sua exuberância. Seu coração bateu forte nesse momento e ela guardou esse pensamento apenas para si. Olhou para o horizonte e ouviu o canto dos querubins que anunciavam o fim do dia.

- O que será que tem além disso tudo? – Pensou. – Lá a diante, onde nem eu, nem Adão pensamos em ultrapassar? – Um pequeno calafrio dominou seu corpo e ela voltou apressada ao encontro de seu parceiro.

- Lilith! – Uma voz masculina, que não era a do companheiro a chamou pelo nome.

Ela apressou os passos.

- Calma, não precisa ter medo. Sou a ‘Estrela da manhã’, um dos guardiões da árvore da vida. Essa que você observava curiosa. Esse é o nome dela, ‘árvore da vida’. É de lá que emana toda energia que sustenta esse lugar. Os Elohins nunca disseram isso a vocês.

Ela virou-se.

- Esta tarde, preciso ir. – Disse receosa.

Era um homem alto, minuciosamente musculoso, cabelos louros encaracolados e longos, olhos alaranjados e profundamente sedutores, lábios carnudos e cor de sangue. Vestia uma armadura de metal nobre e branco pontilhada com pequenas esmeraldas nas partes que cobriam os braços, essa roupa começava a altura do pescoço descendo e delineando todo seu corpo até a altura dos pés, esses por sua vez eram confortavelmente calçados por uma película de bronze. As asas brancas fechadas lembravam uma capa que tocava o chão. Seu nome era Ben-Shakar.

Lilith saiu correndo sem olhar para traz e sumiu na escuridão.

- Tola. – Balbuciou ele. – Desaparecendo como vapor.

Aquela noite ela ficou apenas abraçada com o homem que dormia a seu lado em silêncio. Os pensamentos martelando sua cabeça, não conseguiu dormir.

Na manhã do dia seguinte, ela apresentou-se estranha, agitada como nunca antes. Foram fazer amor na margem do rio e ela esquivou-se, não quis. Era a primeira vez que recusava fazer sexo com seu homem. Ele ficou sem entender, mas também não perguntou nada. Ficaram em silêncio por todo o dia.

Ao anoitecer, quando se deitaram, ele a procurou como de hábito. Ela tomada pelo desejo carnal o dominou, precipitando seu corpo sobre o dele, ficando por cima durante toda relação. O prazer e a sensação de poder sobre o outro dominou sua alma. Nunca haviam feito amor com aquela intensidade, era sempre ele que a dominava. Caiu em êxtase sobre o corpo de seu companheiro e adormeceu. Ao longe, ouviu mais uma vez a voz daquele estranho chamar seu nome. Acordou assustada. Adão dormia tranquilo, e ela, voltou a adormecer sobre seu corpo.

 

 

 

 

Passou-se um período de tempo, Lilith estava sozinha em um pequeno campo de gira-sóis que nascera próximo ao centro do jardim, a árvore que ali ficava, havia germinado seus dois frutos seculares, ela aproximou-se curiosa. Sabia que era proibida de estar ali, mas alguma força a impulsionou a desobedecer aquela ordem. Seu coração batia apressado e ela mal conseguia controlar a respiração.

Chegou bem próximo à árvore, os frutos perolados brilhavam com o reflexo da luz do sol, eram lindos e tentadores. Uma voz familiar sussurrou ao seu ouvido:

“- Pegue e coma!”.

Ela estremeceu dos pés a cabeça, havia um tempo que não ouvia aquela voz interior.

 “- Anda logo, colha esse fruto e coma de uma vez, os deuses não querem que vocês humanos fiquem iguais a eles, por isso os proibiu de chegar até esse lugar, não vai perder essa oportunidade de torna-se divina, vai!”.

A mulher ficou tão atordoada que mal teve tempo de raciocinar com clareza. Ergueu as mãos e tomou do fruto levando-o a boca, o devorou com pressa. Um forte vento invadiu o lugar onde estava. Ela ficou petrificada por uns segundos. Alguém segurou em sua mão esquerda e começaram a sobrevoar aquele lugar. Lilith estava tomada de êxtase, como alguém que ingere algum tipo de droga. Pousaram perto da árvore da vida, os querubins não estavam ali naquele momento. Pousaram lentamente, e a voz dominou seus pensamentos mais uma vez.

“- Agora, para tornar-se completamente divina, coma do fruto desta árvore também!”. Ela obedeceu às cegas e comeu. Sua cabeça foi dominada por uma gargalhada desdenhosa.

O som de trovões indicava o retorno dos querubins. Lilith olhou para si como nunca fizera antes, uma sensação de poder dominou seu corpo e sua alma, a pele brilhava como o fruto daquela árvore, em um tom perolado. Precisava contar isso a Adão. Correu dali em direção a seu marido. Os querubins, cientes do que havia acontecido seguiram seus passos.

Adão estava sentado à beira do rio observando os peixes, ouviu Lilith gritar seu nome, eufórica. Olhou em sua direção, percebendo que logo atrás dela os guardiões da árvore da vida a seguiam, notou que havia algo de errado. Colocou-se em pés e correu apressado em direção à mulher.

- Não chegue perto e nem a toque! – Gritou um dos querubins. – Ela está contaminada!

Nesse instante, Lilith teve uma visão aterradora. Parou estática e observou aquele lugar a sua volta, estava tudo diferente, era um local feio, pantanoso e cheio de arbustos com espinhos pontiagudos. Ela soltou um grito de medo. Ao longe, Adão corria em sua direção.

O homem corria desesperado em direção à mulher, não escutou direito o que gritara o guardião, só queria saber de aproximar-se de Lilith. “O que havia acontecido.” – Pensou ele atordoado.

- Não chegue perto e nem a toque, ela se contaminou! – Repetiu.

Adão parou estático e gelado, o coração parecia que ia sair pela boca. Observou melhor aquela figura que corria em sua direção. Definitivamente, não era sua Lilith. O corpo estava coberto por escamas esverdeadas, a grande cabeleira ruiva havia desaparecido e dado lugar a escassos fios de cabelos brancos, os olhos estavam vermelhos feito fogo e dois caninos saiam em destaque para fora de sua boca. Ele não conseguia mexer um músculo sequer feito uma estátua de mármore. Antes de perder totalmente os sentidos viu os querubins, um de cada lado erguendo aquela figura medonha até os céus e desaparecendo. A noite finalmente caiu sobre o jardim do Édem.

 

 

 

 

 Lilith foi encaminhada pelos querubins, a cidade eterna de Galmatama, para ficar aos cuidados do grande sábio elfo Aileen, cujo nome significa “luz”. Porém, já não havia mais o que ser feito. A metamorfose já havia começado e isso seria irreversível.

Aileen era o líder dos elfos, conhecedor dos grandes segredos do universo, possuía o dom da cura dos males existentes. Era de estatura alta, e como todos os de sua espécie, belo em aparência física. Seus cabelos eram brancos, fartos e encaracolados, o rosto possuía traços perfeitos, combinando com os olhos azuis, o nariz simetricamente desenhado, os lábios levemente avermelhados, rodeados por uma barba farta da mesma cor dos cabelos. Carregava no pescoço uma pedra de cristal puro que era a fonte de energia de seu povo. Suas túnicas eram confeccionadas com o mais puro algodão cru, adornadas à altura dos ombros até a cintura com peles de cabras silvestres, os pés eram calçados por sandálias feitas de couro que eram amarradas por cadarços até a metade das pernas.

Diante de seus olhos estava uma figura decadente, a beleza havia abandonado seu corpo. E o que antes havia sido um belo exemplar da raça humana, tornara-se um ser rastejante e asqueroso. Lilith, foi colocada dessa forma, em uma enorme gruta de cristais puros, com a esperança de que aquele ambiente limpasse seu corpo daquela energia. Ficou ali guardada por um período de tempo, sob os cuidados e os olhares atentos dos elfos. O local ficava em um lugar afastado da cidade, era uma caverna formada por cristais, do chão ao teto toda sua composição era composta por essa pedra. Era uma das tantas outras que existiam dentro das muralhas de Galmatama, serviam como ponto de purificação e reposição de energia para o belo povo. Porém, daquele dia em diante, aquela em especial seria ocupado por tempo indeterminado por aquela hóspede indesejada.

O dia amanheceu diferente, Adão acordou com uma sensação estranha, procurou por sua companheira por todo dia e em todos os lugares, não a encontrou. Suas lembranças eram muito vagas sobre o que havia acontecido no dia anterior, parecia ter vivido um sonho ruim. De certa forma estava acostumado com os desaparecimentos rotineiros de sua companheira, uma hora ela voltaria para seus braços. Era comum para ele, ela ficar horas ou até mesmo o dia inteiro longe de sua presença, afinal de contas, ela era muito mais curiosa e muito mais exploradora daquele lugar onde viviam. Ele possuía uma personalidade muito mais tranquila, bastava apenas estar ali a usofluir ao máximo das belezas daquele lugar, não tinha grandes ambições ou curiosidades, queria apenas viver e aproveitar as coisas boas que o Paraíso oferecia.

Passou-se aquele primeiro dia e na sequência outros vieram, Lilith, no entanto não retornara para seus braços, uma grande tristeza dominou sua alma. Já não havia mais onde procurar e ele não conseguia entender o que estava acontecendo, ou o que havia acontecido. “Por que ela o abandonou”.  Sentiu-se solitário. Começou então a observar melhor aos animais a sua volta, todos possuíam uma companheira, e ele havia perdido a sua para sempre.

Certa tarde quando estava sentado sobre umas pedras, observando o pôr do sol, dominado por uma tristeza profundo que lhe corroia a alma, foi tomado de súbito por um sono incontrolável. Caiu ali mesmo no chão de areia como quem estivesse anestesiado. Ficou naquele estado por uma semana inteira, adormecido. Acordou atordoado, abrindo os olhos lentamente, olhou para o seu corpo com curiosidade. Viu as mãos, as pernas, subiu a visão para o troco e notou uma pequena cicatriz, que já estava quase desaparecida, em seu flanco esquerdo. Passou lentamente a mão direita sobre ela, sem saber exatamente do que se tratava. Sentou-se no chão e em seguida levantou-se indo em direção ao rio. Ficou surpreso, quando viu aquela figura feminina deitada a margem do rio. Era bela, alta, cabelos loiros, longos e lisos, pele branca, lábios rosados, seios fartos e rígidos, pernas torneadas, curvas delicadas e sedutoras por todo o corpo. Ele aproximou-se curioso e excitado, tocando seu rosto com delicadeza. Ela abriu os olhos, cinzas e misteriosos e soltou um grito assustada, esquivando-se um pouco.

- Não precisa ter medo. – Ele se afastou um pouco, fitando seus belos olhos. – Quem é você? – Perguntou.

Ela nada respondeu, não conseguia emitir nenhum tipo de som inteligível. Adão então entendeu exatamente o que estava acontecendo. Fora presenteado com uma nova fêmea, sentiu uma pontada na pequena cicatriz e imaginou que ela havia sido tirada dali e não feita do pó da terra como ele. A tomou em seus braços fortes e a levou para dentro do rio, sentiu o coração dela bater em um ritmo acelerado.

 

 

 

 

Passado o período de um ano, Lilith voltou a sua forma física normal, mas ainda era mantida confinada na gruta de cristal, sua carne ainda ardia em febre e por esse motivo era sensato deixa-la ali por mais algum tempo. Aileen sabia que ela nunca mais seria curada daquela maldição, só precisava saber exatamente o período de tempo em que ocorreria outra vez. Talvez se contabilizasse o período em que ela se tornaria serpente outra vez, conseguiria desenvolver um antídoto para sua cura, embora achasse isso quase impossível. O correto seria mantê-la ali por toda eternidade, para que não corressem o risco de problemas futuros.

Mas como até mesmo em lugares mágicos e protegidos por divindades nada dura para sempre. Certa noite, Ben-Shakar disfarçado de elfo, foi ao encontro de Lilith. Seu propósito era tira-la dali e devolve-la de onde ela nunca deveria ter saído. O Jardim do Édem. 

Passou pelos elfos que guardavam a gruta como se fosse um deles e entrou.

Lilith estava absorvida em seus pensamentos, sentada sobre uma enorme almofada de algodão cru, seu olhar estava perdido no espaço como se estivesse em êxtase. Os prismas de cristais refletidos pela luz do sol marcavam sua pele branca com pequenos pontos coloridos. Ela vestia uma túnica de seda branca, com um cordão fino, vermelho de linho a altura da cintura, um colar de cristal bruto amarrado ao pescoço por um fio de couro fino. A grande cabeleira ruiva estava solta, dando um ar selvagem à sua beleza, os pés estavam descalços. Levantou o olhar em direção à entrada da gruta, assim que percebeu a presença de Ben-Shakar.

- Demorei um século para descobrir seu paradeiro... Finalmente. – Falou com um sorriso sínico no belo rosto. – Pronta para liberdade. Preciso te mostrar o que aconteceu em sua ausência. Colocaram outra em teu lugar, e o teu Adão já nem lembra mais de ti.

- Me deixe em paz, a última vez que te dei ouvidos, sabes muito bem o que me aconteceu. – Levantou o rosto sem se mexer de onde estava, respondendo o intruso.

- Tudo bem, se você quer ficar presa aqui para o resto da eternidade. Escolha tua, depois não diga que não tentei te ajudar. – Virou as costas imitando uma saída.

- Espere um pouco! – Disse a mulher, levantando-se de súbito.  – Como conseguiu entrar aqui? - Perguntou curiosa.

- Sou um elfo, não esta vendo! – Sorriu debochadamente. - Disse que estava a serviço de Aileen, que ele ordenou para tira-la daqui por uns instantes. E esses idiotas acreditaram.

- Estou bem aqui, me deixe em paz. – Virou-se de costas para o querubim.

- Tudo bem essa é a sua única chance. É pegar ou largar. Sabe o que querem fazer com você. Deixa-la aqui presa para sempre, por que até hoje não descobriram a cura para tua maldição, e nem vão fazer esforço nenhum para descobrir. Você  não passa de uma ameaça para eles.

- Para onde vai me levar. – Voltou-se para ele mais uma vez o encarando nos olhos.

- Venha comigo que eu te mostro! Qualquer coisa é melhor do que ficar trancafiada nessa gruta. Não acha?!

“Nisso ele tem razão.” – Pensou ela.

- Não tenho muito tempo, esse disfarce vai durar apenas mais alguns minutos.

Os dois saíram sem maiores problemas, quando já estavam longe da vista de todos, ele a pegou pela mão e alçou voo em direção ao Édem.

 

 

 

 

Um vento forte invadiu o átrio onde Aileen estava praticando suas meditações e sussurrou algum aviso em seus ouvidos.  Era uma sala grande e quadrada com medidas precisas e iguais, possuía dez metros de altura e cada parede media sete metros em seu tamanho. Pisos e paredes revestidas de mármore branco, dando a impressão de espaço ainda maior, um lustre enorme feito com cristais de todos os tamanhos, descia do centro do teto, ficando suspenso a uma altura de cinco metros. Um grande tapete vermelho ficava exatamente colocado no centro do piso, sob o lustre, nos quatro cantos da sala almofadas coloridas e revestidas de seda, costuradas por fios de prata. A entrada era fechada por uma enorme porta de madeira nobre, banhada a ouro, do lado oriente, uma grande janela do mesmo material. Abaixo da janela um móvel comprido e estreito, composto por quatro pés, abrigava um belo castiçal de sete lamparinas que ficavam acesos vinte quatro horas por dia, alimentadas por azeite.

O elfo levantou-se mais do que depressa, havia acontecido alguma coisa errada, ele podia sentir uma energia estranha no ar. Saiu de dentro de seus aposentos e olhou com atenção para o horizonte. Um cheiro ruim invadiu suas narinas. Virou seus olhos em direção ao Jardim do Édem, fortes relâmpagos indicavam que a ira dos Elohins baixara mais uma vez sobre aquele lugar.

Correu em direção a gruta de cristal, não entendia bem ao certo, mais algo lhe dizia que um fato tinha ligação com o outro. Não ficou surpreso ao chegar e descobrir que alguém tinha levado Lilith dali.

Disseram para ele, que um elfo havia recebido ordens expressas dele, para sair com a prisioneira por um pequeno período de tempo, para observar suas reações e para ver como ela reagiria fora da gruta. Ao terminarem suas explicações, descobriram que haviam sido enganados por Ben-Shakar.

Aileen sentiu um grande aperto no coração, não havia mais nada o que fazer. Alguma força destruidora já tinha se abatido no Paraiso.

Dessa vez, os Elohins não mandaram mensageiros, desceram pessoalmente para descobrir o que havia acontecido.

Adão e sua mulher se esconderam. Sentiram-se envergonhados pelo que tinham feito. Eva, seduzida por Lilith, provou do fruto do conhecimento do bem e do mal, e levou para seu marido, que por sua vez, seduzido por ela, também experimentou do mesmo. Tomaram para si seu próprio destino e foram expulsos do Édem para sempre.

Lilith voltou a se rastejar pelo chão em forma de serpente, e essa maldição a seguiria para sempre, de tempos em tempos ela se tornaria um ser rastejante. Dividiria para sempre sua existência humana com sua sina de transformar-se em um réptil, uma serpente.

Ben-Shakar, simplesmente desapareceu, e ficaram sem ouvir falar dele.

O Édem foi esquecido no passado e no imaginário coletivo da humanidade. Em seu lugar um grande deserto de areia e sol escaldante. Um local quase inóspito para se habitar. Cheio de mistérios e miragens. Onde o homem fraco é engolido pela areia. E o forte sai de lá com o corpo marcado de cicatrizes.

 

 

 

 

Depois de andar como nômade por vários lugares, hora como serpente hora como mulher. Lilith chegou ao Egito. Sua forma física sofreu algumas mudanças, tornou-se uma mulher mais bela e mais madura, cresceu alguns poucos centímetros, a musculatura tornou-se mais forte, a pele mais branca, os cabelos ruivos ganharam um vigor ainda maior, os olhos ficaram mais vivos e adquiriram tonalidades diferentes do cinza ao azul do verde ao amarelado, os lábios mais carnudos compunham seu rosto perfeito. Os seios cresceram sem exagero, agora mais rígidos e sedutores do que nunca e as curvas se destacaram ainda mais.

Para sobreviver entre os humanos, que agora ocupavam a Terra em grande número, precisava manter seu segredo em oculto. Ninguém poderia saber que ela era a maldita mulher serpente que fizera todos perderem o Paraíso. Mesmo porque, naqueles tempos, as lendas e histórias sobre o Édem perdido ainda estavam ressentes  na memória humana. Os descendentes de Adão passavam esses relatos de pais para filhos, sempre enfatizando que, a grande culpada da expulsão do homem do Jardim, se deveria por causa da astúcia da mulher serpente, Lilith, e da fraqueza da mulher, Eva.

Mudou seu nome então para Khalida, que quer dizer: (eterna sobrevivente).  E assim manteve sua verdadeira identidade em segredo. Praticante eximia da dança do ventre, astuta, sedutora, bela e misteriosa. Tornou-se em pouco tempo a mais solicitada cortesã da alta sociedade egípcia. Chegando sua fama aos ouvidos do Faraó.

Mas a maldição de Lilith não se restrigia apenas em tornar-se uma serpente a cada ciclo de cem anos, quando estava em sua forma de mulher, para manter-se jovem e bela, necessitava alimentar-se de sangue humano, isso ocorria na primeira lua nova de cada mês. Suas vítimas eram geralmente andarilhos do deserto ou ladrões, para não levantar suspeitas. Sugava todo sangue de suas vitimas e depois decapitava seus pescoços para que não se tornassem iguais a ela.

Historias e lendas de homens encontrados no deserto com o corpo seco como uma pedra e sem cabeça, borbulhavam por vilarejos, cidades e até na capital do império egípcio. Diziam tratar-se de Lilith.

Khalida aproximou-se da janela de seu enorme aposento, abriu as cortinas de linho branco e tule, levando sua visão ao horizonte em direção ao rio Nilo, cheio de vida. Fonte de energia daquela civilização. Lembrou-se de quando se debruçava as margens do Tigre, no Édem e de quando conheceu Ben-Shakar pela primeira vez.

“Onde andaria aquele maldito.” – Pensou.

O quarto onde estava era grande e confortável, paredes pintadas à cal, piso de cerâmica produzida com a lama do Nilo, portas e janelas de madeira rústica. A mobília era composta por uma espécie de mesa, algumas almofadas distribuídas pelo ambiente, uma cama enorme que era fixada ao chão por uma espécie de armação de junco grosso, coberta por um mosqueteiro de tule nobre. Em um canto qualquer do ambiente, um baú grande de madeira negra onde guardava suas roupas e outros quatro menores, sobrepostos um sobre o outro que continham seus adereços.

Deva a criada, entrou apressada no quarto. Era uma mulher gorda, negra e de baixa estatura.

- Senhora, senhora... Homens do Faraó batem a sua porta! – Falou um tanto assutada.

Ela virou-se lentamente, olhando a criada dos pés a cabeça e com certo ar desprezo nos olhos.

- Mande-os entrar inútil. – Gritou com a serva.

- Vai recebê-los assim. – Retrucou a criada cobrindo os olhos com a mão direita, envergonhada.

Khalida percebeu que estava nua e sorriu debochada.

- Vá e avise que já estou indo...  Anda depressa sua lesma!

A mucama saiu correndo de cabeça baixa.

O copeiro pessoal do Faraó e o Grã-sacerdote da divindade Seth a aguardavam na sala, sentados em grandes almofadas como era de hábito. Era uma sala confortável, com poucas mobílias, possuía a mesma concepção arquitetônica do resto da casa, piso em cerâmica e paredes pintadas à cal, uma porta grande para entrada e saída e uma janela ao lado direito da porta principal. Do lado de dentro outra porta  de tamanho médio que dava acesso a um largo corredor que por sua vez unia o resto do imóvel. Os móveis, por sua vez eram apenas uma mesa grande que ficava localizada abaixo da janela, ornamentada com um grande vaso de murano azul, preenchido por lírios brancos, e uma toalha de linho branca. As almofadas que serviam de assentos, todas grandes e em tons coloridos e alegres. Um tapete egípcio com desenhos geométricos, localizado como de hábito, no centro da sala.

Khalida entrou no ambiente, vestida em uma túnica vermelha bordada a ouro e com um véu negro cobrindo os cabelos ruivos e parte do rosto, deixando apenas os olhos que estavam verdes no momento e os grandes cílios a mostra, os pés perfeitos estavam descalços, e uma joia de ouro com pequenas pedras de turquesa adornavam o tornozelo direito.

Deva estava em pé e de cabeça baixa em algum canto da sala.

- Vá buscar uma bebida fermentada para os nobres cavalheiros. – Abriu o véu deixando o rosto à mostra e ajeitou a túnica à altura dos seios fazendo um movimento provocante.

A criada saiu de imediato.

- A que devo a honra, senhores. - Sentou-se em outra almofada de frente para os dois, separados apenas pelo belo tapete.

- O Faraó tem curiosidade em conhecê-la. – Disse o copeiro, olhando discretamente para os seus seios que estavam um pouco aparentes.

- E por que ele não veio pessoalmente. – Perguntou ela, encarando o homem nos olhos.

- Desculpe minha senhora, a Divindade é um homem ocupado. – Falou o outro.

- E o que ele quer de mim. – Olhou o outro com desdém.

- Sua dança faz muito sucesso pelo império, ele esta curioso em vê-la dançar, hoje. – Falou o sacerdote em tom imperativo.

- Diga a sua divindade que também sou uma pessoa ocupada, mas que arranjarei um tempo para atendê-lo. Hoje é impossível, tenho outros compromissos inadiáveis.

Levantou-se cobrindo o rosto com o véu negro.

- Estamos a poucas semanas do ano novo, diga que mandarei um mensageiro avisando quando as festividades estiverem próximas.

 Respirou por um instante como se estivesse cansada, esperou um tempo estratégico e saiu da sala desaparecendo da visão dos dois, entrando em seus aposentos. Esse jogo era infalível, criava uma aura de mistério e poder.

Os homens se olharam entre si atordoados, levantaram meio sem jeito esperando que Khalida voltasse, mas isso não aconteceu.

“Quem seria aquela mulher, que não aceitou de imediato o convite do grande Faraó”. – Pensaram.

Saíram sem saber ao certo o que iriam dizer ao grande rei do Egito.

Deva retornou com as bebidas, mas os homens já haviam ido embora.

 

 

 

 

O aparecimento da estrela Sirius da constelação do Cão Maior, indicava o início do ano para os egípcios. Com as festividades próximas, Khalida enviou seu mensageiro ao palácio do grande deus-homem. Havia passado algumas semanas desde que este enviara seus homens de confiança para aborda-la.

A excitação e a ansiedade dominaram a alma do imperador. “Iria seduzir e conquistar para si aquela mulher famosa e misteriosa”.  – Pensou. –“Ela seria única e exclusivamente sua”.

Uma pequena comitiva com guardas da corte e quatro eunucos foram enviados para buscar Khalida em casa. Trouxeram um andor feito de cedro e coberta com linho branco para transporta-la até o palácio real.

Chegaram à noite e em grande estilo.

 O Faraó sentado no trono do salão nobre. O coração batia eufórico, finalmente sua deusa conduzida até sua presença. Ouvira dizer que ela possuía dotes sexuais que enlouquecia os homens com quem se deitava. Essa noite ele iria explorar todos esses talentos. Estava sozinho, logo que o andor foi pousado no chão, os serviçais se retiraram, os guardas fecharam as portas do salão atráz de si, e lá dentro, apenas o rei e a meretriz. Os pés estavam calçados por sandálias de couro que eram amarradas até o meio da panturrilha, vestia uma espécie de sarongue de linho da cintura até os joelhos, um colar de ouro com pedras preciosas sobre o pescoço até a altura do peito, a cabeça coberta com um véu de linho endurecido e branco com faixas azuis escuras nas duas laterais deixando as orelhas à mostra, uma coroa de ouro branco encaixada na testa com uma grande pedra de rubi ao centro. Os olhos eram marcados com lápis de hena. Era um homem alto, pele morena, corpo musculoso, olhos castanhos, cabelos raspados, braços e pernas fortes.

O homem levantou excitado. Silêncio.

O salão nobre era enorme e imponente, piso de mármore negro, quatro colunas altas cobertas também com mármore branco, paredes revestidas de cerâmicas nobre em tons pastéis e pintadas com figuras dos deuses do panteão egípcio. O trono do grande rei ficava ao fundo do salão, sobre uma plataforma dividida em três degraus que desciam em semicírculo.  O acento real era todo forjado a ouro puro, com o encosto alto e os descansos dos braços largos e confortáveis, almofadados e forrados com cetim vermelho, pequenas pedras preciosas eram distribuídos o longo do móvel. Atrás do trono, um painel de linho que descia do teto do salão até o chão fixado por grandes argolas de bronze. Trazia a figura imponente do deus Osíris. Tochas acesas devidamente distribuídas pelo espaço davam um toque de charme ao local.

Khalida saiu por entre as cortinas de linho. Estava completamente nua. Os cabelos ruivos soltos, os seios rígidos, o corpo um verdadeiro aperitivo cheio de curvas sinuosas e misteriosas convidando o rei para a luxúria e os prazeres da carne.

O semideus sentou-se em seu trono totalmente atordoado, embriagado por aquela energia. A sua frente uma figura bela de uma mulher despida de roupas e de pudores aproximando-se lentamente dele.

Lilith fixou o olhar sedutor ao de sua presa e foi em sua direção, ficaram frente a frente, ele sentado e ela em pé, soberana. Colocou as mãos sobre as coxas fortes do homem e aproximou as narinas a seu pescoço, sentiu o cheiro de testosterona e de sangue. Os olhos ficaram vermelhos e os caninos afiados em destaque. Controlou seus instintos animais e apenas lambeu o pescoço do rei, com volúpia. Ficou sobre ele e fizeram sexo, ali mesmo sobre o trono. Depois feitos cães no cio exploraram todos os espaços existentes até caírem em êxtase.

De cortesã, Khalida passou a rainha do Nilo, mas suas ambições estavam além disso. Não queria apenas ocupar o trono e ser rodeada de servos e eunucos. Queria tornar-se a Grã-sacerdotisa da divindade Seth, para isso, porém, deveria exterminar Murdock, o então atual sacerdote.

Acredita-se que na época, os adoradores do deus egípcio Seth praticavam o sacrifício de crianças em oferendas e cultos a este ser divino. Sendo assim, ela não precisaria ir até o deserto para saciar sua sede de sangue. Muitos filhos dos hebreus, povo escravo dos egipcios, eram sacrificados nesses cultos. Achavam que o sangue humano trazia a vida eterna e a jovialidade.

Arquitetou então, um plano maquiavélico. Seduziu Murdock e o levou até sua cama. Quando o Faraó os flagrou, disse que o sacerdote a obrigou e que usara de violência para conseguir possui-la.

O rei, por sua vez, mandou matar o traidor decapitado. E ela tornou-se então a sacerdotisa soberana do deus sanguinário.

 

 

 

 

O Faraó precisava de um herdeiro para o trono, mas Khalida não poderia lhe gerar um rebento, era estéril.  Ele estava complemente escravizado por aquela mulher, e muito embora tivesse suas concubinas, queria um filho dela, de sua rainha.

Certa noite, Khalida fez o rei adormecer com um sonífero e fugiu as escondidas para o deserto, ouvira dizer em boatos, pelas bocas de seus serviçais. Que certo anjo decaído morava no deserto e devorava comitivas inteiras de beduínos nômades que transitavam por ali.

- “Ben-Shakar.” – Pensou ela. – “Estava mais do que na hora desse maldito compensa-la por tudo que havia passado em sua vida até aquele momento”.

A noite no deserto era gelada e solitária, mas Lilith estava acostumada a esse clima. A lua brilhava cheia no centro do céu. Ela ficou em pé e em silêncio em meio a areia esperou por algumas horas e depois cortou o silêncio com um grito.

- Sei que você esta ai, então apareça logo, não tenho a noite toda para te esperar.

- Não só tem a noite toda, como a vida eterna minha cara. – Conhecia aquele tom de deboche.

- Onde esteve durante esse tempo todo, infeliz.

- No seu coração, nos seus pensamentos e agora em seus desejos de mulher.

- Quero sua ajuda.

- Eu sei, sempre alguém quer minha ajuda.

- Se já conhece meus anseios, então vamos parar de rodeios idiotas. Quero dar um filho ao Faraó.

- E o que eu tenho haver com isso. – Finalmente apareceu com sua figura bela e com aquele sorrisinho sínico de sempre.

- Me faça gerar um filho.

- Sou um anjo, não tenho desejos inferiores iguais a vocês humanos e vampiros.

- Achei que você tivesse capacidade para isso, mas como sempre estava enganada. Vocês divinos são tão incapazes que não conseguem gerar semelhantes.

- Por que não pede aos Elohins, são eles que gostam de criar toda espécie de seres viventes.

- Pare de desdenhar de mim.

- Gostaria muito de possuir o seu corpo, mas só posso me apoderar de sua alma.

- Então use minha alma, não importa a forma. Quero apenas gerar uma maldita criança para sossegar o coração do meu marido.

- Como você pensa pequeno.  Mas se é assim que quer, volte para casa e deite-se com aquele paspalho que brinca de ser deus. Daqui a um mês você terá o que deseja. – Falando isso ele soprou sobre a testa dela.

- Como posso acreditar em você?

- Não veio até aqui no deserto a minha procura, então. Já acreditou. Agora vá, tenho mais o que fazer.

Lilith voltou para o palácio. Deitou-se com o Faraó. Um mês e algumas semanas depois estava grávida.

Seu desejo seria sua taça de veneno!

 

 

 

 

O filho do Faraó nasceu robusto e gozando de boa saúde, a pele bronzeada lembrava o pai, os cabelos vermelhos e os olhos verdes, remetiam a figura da mãe. Houve uma semana de festa para comemorar a chegada do filho do rei, que recebeu o nome de Akinabe.

Os anos se passaram, na infância, Akinabe fora uma criança mimada e perversa. Na adolescência um rapaz impulsivo e rebelde. Ao completar a maioridade tornou-se um jovem ambicioso. Era dono de uma beleza sedutora, corpo esguio e bem distribuído em um metro e oitenta de altura, olhar marcante, daqueles que penetram na alma.  Para ele o titulo de príncipe do Nilo, não bastava, queria sentar-se no trono como Faraó. Nutria também em seu coração um grande desprezo pela mãe.

“Aquela vadia que ele flagrara vária vezes na infância, em orgias sexuais com os sacerdotes do deus Seth.”

 Em uma noite de lua cheia, Akinabe entrou nos aposentos do Faraó, ele se encontrava deitado em seu leito. Sentou-se à beira da cama com a presença do filho. Olhou para aquele rapaz com orgulho, era o futuro do seu reino. Estava com duas taças de ouro em uma bandeja do mesmo material, cumprimentou o pai com reverência. Depositou a bandeja com as taças sobre uma pequena mesa e pegou uma delas entregando ao Faraó.

- Vida longa ao rei! – Disse.

- Que data especial comemoramos hoje? – Perguntou curioso.

- Não preciso de datas especiais para brindar com meu pai. – Encarou o Faraó nos olhos.

O rei levantou-se, tomou a taça das mãos do filho, brindou e ingeriu a bebida. Passaram-se apenas alguns segundos para que o veneno potente domina-se o corpo do rei que caiu ao chão, vomitando e convulsionando até ficar totalmente inerte. O príncipe observava toda cena em pé e friamente. Saiu do quarto deixando o grande rei do Egito estático no chão. Seu plano ambicioso para se tornar o rei do império estava apenas começando.

Ao entrar nos aposentos do rei pela manhã, Lilith o encontrou morto. Os médicos e feiticeiros do reino constataram que o Faraó havia sofrido um infarto fulminante, retiraram o corpo e cuidaram de todo cerimonial necessário para o embalsamento do corpo e do funeral.

Passado o período determinado de luto, Akinabe subiu ao trono como novo rei do Egito. O povo sabia que teriam dias difíceis, pois o jovem Faraó nunca fora visto com bons olhos por ninguém. Até mesmo os sábios e os nobres da corte temiam um reinado sob suas mãos. O tempo provaria que todos tinham razão.

Lilith escolheu dentre os sacerdotes, dois homens e duas mulheres para tornarem-se semelhantes a ela, formaram então, dentro da seita de Seth, o primeiro clã de vampiros existente. Uma pequena sociedade absolutamente secreta. Com regras rígidas a serem seguidas e com a morte por decapitação, como pena severa para o descumprimento das mesmas. Eram eles: Ramusha, Najila, Onir e Saredh,filhos nobres do templo do deus Seth,  juntos com Lilith, formavam o pentagrama.

Ramusha era negra como o ébano, olhos grandes, verdes e vivos, alta, cabelos crespos e longos, lábios carnudos e vermelhos como fogo, era uma figura imponente de mulher que transpirava luxúria e sedução.

Najila tinha uma beleza comum, era pequena, pele branca como a neve, cabelos negros e lisos, olhos pequenos e castanhos, porém donos de uma vivacidade incomum. Seus dotes estavam concentrados na inteligência e na facilidade que possuía com as ciências exatas.

Onir era parrudo e alto, pele morena, olhos acinzentados e de felino. Possuía certo ar de mistério em sua postura.

Saredh, apesar de não ser belo, possuía um ar aristocrático, alto, magro, postura elegante, cabelos raspados à navalha, olhos negros e profundos, dono de uma áurea de sabedoria e adepto da boa leitura, dos conhecimentos universais e da cultura mundial. Possuia um espírito de fidelidade canina e dedicação irrestrita em relação aos amigos.

As regras do clã eram simples e claras: Não podiam revelar sua condição sobre-humana a ninguém, não podiam vampirizar suas vitimas, deviam devoção a Lilith, que os havia dado a vida eterna, protegendo-a em qualquer situação de perigo eminente e se preciso fosse, até morrer por ela.

Ao assumir o trono, o novo Faraó proibiu o culto ao deus Seth, por tempo indeterminado, simplesmente para provocar a ira da mãe. Depois, desmascarou Khalida para a corte, provando que ela e alguns sacerdotes, usavam o culto para pratica de orgias. Quatro da sociedade do pentagrama foram presos, incluindo a rainha. Apenas Saredh conseguiu fugir, escondendo-se em uma pequena província até que a situação acalma-se.

Ramusha, Najila e Onir, foram decapitados e seus corpos queimados e jogados no deserto.

Para sua mãe, no entanto, ele tinha reservado um castigo especial. Mandou confeccionar um sarcófago de ébano e marfim, onde a trancou e a enterrou viva em um poço cavado próximo às margens do Nilo.

Akinabe tinha sede de sangue e seu reinado foi marcado pela tirania, durante sete anos uma nuvem negra dominou o Egito.

No aniversário de trinta anos, o Faraó foi acometido de uma grave doença que lhe corroia a pele. Foram chamados todos os sábios e feiticeiros do reino, mas ninguém descobriu a cura. Em menos de um ano, ele morreu apodrecido em seu quarto. Como não fora um bom rei, quase ninguém chorou sua morte.

Em seu lugar, Akenon, seu filho mais velho assumiu o trono do Nilo, aos doze anos de idade.

O tempo carrega consigo a poeira da destruição. Civilizações inteiras desaparecem e surgem outras. Mentiras tornam-se verdades absolutas e verdades se transforma em lendas. Tudo passa em um piscar de olhos. Os impérios caem, os deuses morrem, a vida se renova. Assim a raça humana segue em sua trajetória. Não se sabe ao certo o que se busca, apenas busca. Cria, constrói coisas, destrói outras. Recicla. É a vida que segue...

 

 

Roma. (Ano Domini III).

 

 

- Lilith! – Fazia uma eternidade que ninguém a chamava por esse nome. Abriu os olhos lentamente como quem acorda de um sono profundo. As imagens foram tomando forma, o som da voz lhe era familiar... - Vestia uma exuberante túnica de seda branca, bordada com fios de ouro, que cobria o corpo do pescoço aos pés. Na cabeça, uma tiara de ouro com pequenos diamantes cravados, os belos cabelos ruivos, presos por uma bela trança.

- Saredh. – Falou assustada. Olhou para aquela figura tão familiar, que estava em pé olhando carinhosamente para ela e falou com calma e compassadamente. – Como sobreviveu? Como me encontrou? – Observou a si mesma olhando a roupa que vestia. Passou a mão direita na cabeça, tateando a tiara que a enfeitava.

- Acalme seu coração, estamos em segurança! – Disse, sentando-se ao seu lado na cama e segurando sua mão direita carinhosamente. – Ele trajava um belo sári de linho cru, um turbante na cabeça do mesmo material com uma pedra de ametista azul no centro, simbolizando a terceira visão.

- Que lugar é esse, onde está aquele maldito que eu pari. - Falou desnorteada.

- São muitas perguntas. Já disse, acalme-se e eu responderei a todas. O que mais importa no momento é você saber que estamos absolutamente seguros e fora de perigo. – Ficou em pés novamente.

O coração de Lilith voltou ao ritmo normal e a respiração foi se moderando aos poucos.

“Quantas vezes iria morrer, quantas vezes iria retornar da morte.” – Pensou olhando para o amigo.

- Estamos em Roma. – Falou ele olhando para ela.

- Onde. – Perguntou confusa. Sentou-se na cama colocando os pés para fora, tocando o chão.

- Roma... O novo centro do mundo!

- E o Egito. – Levantou-se.

- Esta lá, no mesmo lugar. Mas a história que vivemos lá ficou em um passado muito, muito distante... – Ficaram frente a frente.

- O Faraó. – Estava curiosa para saber o destino do seu filho maldito.

- O mundo agora é governado pelos Césares. – Deu uma pausa e continuou. - Lilith, passaram-se muito tempo depois daquele dia fatídico.

Sentaram-se nas almofadas que estavam acomodadas no canto direito do dormitório, ficando frente a frente um como outro.

- Então, conte-me, tenho toda eternidade para ouvi-lo! – Deu um sorrisinho sem graça.

- Naquele dia, não compareci ao culto, lembra-se.

Ela consentiu com a cabeça.

- Pois bem, alguém me avisara das intenções do Faraó, quando eu estava me dirigindo ao templo, já seria então tarde demais para poder avisa-los do perigo que corríamos. Resolvi então fugir, para preservar minha vida. Morei durante muito tempo no anonimato em uma cidadela. Mas a mão do rei chegou até onde eu estava, e tive que fugir outra vez, dessa vez para um lugar mais distante. Nunca mais ouvi falar do Egito e daquele teu filho maldito. Deixei então o tempo passar. Quando voltei, teu tataraneto era o atual Faraó. Já não existia uma sequer alma daquela geração. Comecei a prestar atenção nas historias que ouvia nas ruas, nos mercados, para entender o que havia acontecido com o pentagrama. Não se tinha sequer uma lenda a nosso respeito. Fiquei então sem um ponto de partida. Um dia, no mercado, ouvi alguém citar uma estória de um Faraó que havia enterrado a mãe viva em um sarcófago de ébano às margens do rio Nilo, próximo aos juncos. Mostrei interesse pelo que o mercador contava... Então descobri que se tratava de você.

- Aquele amaldiçoado, me deixou presa por séculos dentro daquele caixão... – Falou com um toque de ódio na voz.

- Então... Como não tinha a localização exata de onde você estava presa, demorei alguns anos para te encontrar. Seu estado era lastimável! Pele seca, olhos esbugalhados, língua arroxeada. Enfim, sabia que estava viva por que não estava decapitada e também por que contavam que o Faraó a tinha enterrado viva.

- E quanto aos outros...

- Foram assassinados.  – Disse triste. - Só sobramos eu e você. Bem, quando te encontrei estava naquele estado que já lhe disse, resolvi então te trazer de volta ao mundo. Alimentei durante décadas teu corpo com sangue animal. Até que hoje finalmente, você acordou.

- O que aconteceu com o Faraó, meu filho.

- Ainda te importas com aquele traste... Ele foi um déspota, um tirano sem coração, tinha uma sede de sangue diferente da nossa. Mas apodreceu em cima do seu próprio leito e morreu totalmente tomado por uma doença rara que lhe corroeu a sua nobre pele.

Lilith suspirou.

- O que realmente importa é que você voltou à vida. Estamos em um novo tempo e em outro lugar. Não precisas mais usar outro nome que não seja o teu, nos dias de hoje as pessoas tem pouco ou nenhum conhecimento sobre tua lenda. O mundo é outro, os deuses são outros, as lendas são outras...

Lilith levantou-se e foi até a janela, embaixo da sacada, na rua, as pessoas andavam apressadas de um lado para o outro. Não viu a imagem do Nilo, era estranho.

“O que mais perdera durante todo esse tempo.” – Pensou.

Saredh aproximou-se dela.

- Tem mais uma coisa que preciso te falar...

Ela virou-se para ele, encarando-o nos olhos.

- Tem muitas coisas que você precisa me dizer, meu caro!

- Sim eu sei, mas essa é de vital importância. O motivo que me trouxe até Roma.

- Qual? – Perguntou curiosa.

- Existe um grupo dos da nossa espécie aqui, não sei exatamente quantos são ou onde se reúnem, mas sei que estão aqui!

- Nunca vampirizei ninguém, há não ser vocês quatro. – Disse Lilith.

- Nem eu, sempre me alimentei de sangue de animais, não gosto do sangue humano, você sabe disso.

- Então foi um dos outros...

- Só existe um modo de saber, e eu, já tenho um plano para isso. Estava só esperando você se recuperar totalmente. Talvez hoje a noite encontraremos a resposta.

- Você, sempre pensando em tudo não é?

Parou por um instante para observar os aposentos onde estava hospedada, era uma alcova de luxo. Piso de mármore, portas e janelas de cedro, uma cama grande e confortável, forrada com o mais puro linho, tapetes da Grécia, belas almofadas coloridas, ao canto esquerdo um pequeno e belo móvel feito de madeira nobre e um vaso de murano azul sobre o mesmo, com lírios brancos. Suas flores prediletas.

- Por essa câmara, da para imaginar o resto da tua casa. – Falou admirada.

- Temos todo tempo do mundo para acumular fortuna e adquirir conforto. Por que não fazê-lo.

- Ah sim, claro! Obrigada pelas flores! São lindas! – Deu um beijo no rosto do amigo.

- Sabia que ia gostar. Espero também que goste das roupas que mandei fazer especialmente para você.

- Roupas?

- Claro, uma nobre grega e hospede de um influente cidadão romano, não pode se apresentar para o império de qualquer jeito!

- Grega, eu... – Soltou um sorrisinho.

- Sim, grega. Para ser mais exato. Lilith, de Atenas.

- Gostei... Mas, só para eu entender, onde é ou o que é Atenas.

- Atenas é a capital da Grécia. Os gregos têm grande influência no mundo atual, o idioma mais falado nos dias de hoje é o grego. Os deuses e os costumes romanos foram todos adaptados dos gregos. Enfim, ser um grego facilita muito transitar pela alta sociedade romana.

- Então, você também é um grego...

- Adoro essa sua perspicácia. Sou Saredh, milionário grego que escolheu a capital do império para residir, por isso além de ser grego, tenho titulo de cidadão romano.

- Muito bem! – Sentou-se na cama. – O que mais sabe sobre os vampiros daqui?

- Não muito, como disse ainda não consegui um contato direto. Mas já vi um deles, ou melhor uma, chama-se Jade e é uma dançarina de dança do ventre. Apresenta-se nas festas dos nobres da cidade. Essa noite se apresentara aqui em casa. Contratei seus serviços para apresentar-se para você.

- Então teremos uma festa esta noite...

- Sim, teremos! Para comemorar o seu retorno a vida!

 

 

 

 

Numitor foi deposto do trono de Alba Longa, depois de um golpe do seu irmão Anulio. Ao assumir o trono, Anulio assassina todos os descentes homens do irmão e obriga sua sobrinha Reia Silvia a tornar-se vestal (sacerdotisa virgem da deusa Vesta), porém Reia encontra-se grávida do deus Marte, dando a luz aos gêmeos Romulo e Remo. Como punição, Anulio manda prender a sobrinha em um calabouço, jogando seus filhos no rio Tibre. Por um golpe de sorte ou capricho do destino, o cesto onde encontravam-se os gêmeos atola as margens do rio, próximo aos montes Palatino e Capitolino na região de Cermalus, onde são encontrados por uma loba que os amamenta, junto com as crianças estava um pica-pau (ave sagrada para o deus Marte e para os latinos), que as protege.

Algum tempo depois os irmãos são encontrados por Faustulo, um pastor de ovelhas, próximos ao pé de uma figueira na entrada de uma caverna por nome Lupercol. Ele os leva para casa , onde são criados por sua mulher, Aca.

Os gêmeos crescem junto aos pastores de ovelhas, praticando a caça, corridas e exercícios físicos. Saqueavam as caravanas que passavam pelas estradas em busca espólios. Em um desses assaltos, Remo é capturado e levado para Alba Longa.

O pai adotivo, então, revela para Romulo a história de sua origem. Este parte para a cidade de seus ancestrais e resgata seu irmão. Mata Anulio e devolve o trono a Numitor, devolvendo a este todas as honrarias devidas.

Percebendo que não teriam chances na cidade, saem de lá com todos os indesejáveis para fundar uma nova cidade, no lugar onde foram abandonados. Romulo queria chama-la de Roma e edifica-la no Palatino, Remo queria que o nome fosse Remova e que fosse fundada sobre o Aventino. Foi decidido então que os auspícios decidiriam o nome e quem governaria a cidade, causando assim uma grande discussão entre os espectadores.

Os gêmeos entraram em uma briga acirrada que culminou com a morte de Remo, este então foi sepultado ao sul do Aventino.

Romulo governou Roma por trinta e oito anos e morreu em uma tempestade enviada pelo deus Marte. Nasce assim a lenda de um dos impérios mais importantes e influentes da historia do ocidente.

 

 

 

 

Toda a alta sociedade do império estava presente na festa de apresentação de Lilith.  

O salão nobre era suntuoso e exalava o poder aquisitivo do proprietário por todos os cantos, arquitetura greco-romana, deuses dos mais diversos e das mais variadas culturas espalhados em cada canto do lugar. Os romanos eram politeístas por natureza. Um deus para cada capricho humano. E Saredh como homem sábio e inteligente que era se comportava como um bom cidadão romano.

Lilith entrou pela porta principal. Estava divina. Uma túnica de seda pura, azul turquesa, um véu do mesmo tecido e de um tom de azul um pouco mais escuro, bordado com fios de prata. Apenas os olhos estavam à mostra. Passeou soberana sobre um belíssimo tapete dourado, chamando toda atenção para si. O tapete transitava da entrada central do salão até um ponto mais elevado por três degraus, onde ficavam duas cadeiras forradas com pele de carneiro e com a armação forjada a ouro. Pareciam dois tronos. Saredh a esperava orgulhoso. Sua deusa finalmente estava de volta e cheia de vida. Esperou por séculos aquele momento. Era absolutamente fiel aquela mulher que havia lhe oferecido a oportunidade da vida eterna. Se não fosse ela já estaria há muito tempo enterrado no Egito. Lilith sentou-se, tirando o véu, revelando o rosto que parecia refletir a luz da lua.

Saredh levantou-se eufórico.

- Senhores! Gostaria de vossa atenção. – Falou em um grego impecável. – Minha convidada de honra. Lilith!

Essa em reverencia ficou em pés, sendo ovacionada pelos presentes.

Teófilo, um general do exército romano, ficou particularmente impressionado. Era um homem de porte atlético, cabelos negros, olhos de águia, alto, pele dourada, queimada pelo sol dos campos de batalha. Foi instantaneamente seduzido por aquela mulher bela e misteriosa.

“Quero essa deusa para mim.” – Pensou!

A serpente percebeu o olhar do general em sua direção. Era uma presa fácil. Estava viva outra vez, cheia de desejos, e aquele mortal iria satizfase-la em todos os sentidos. Ela era assim, a luxúria era sua droga. Além de necessitar do sangue humano para sobrevivência, precisava também do sexo, gostava de suplantar os homens atravéz dos seus jogos de sedução.

Ao passar a euforia da apresentação de Lilith, quando o clima de excitação já havia diminuído. Chegou a hora dos espetáculos da noite.

Jade, a mais bela e famosa dançarina de dança do ventre de todo Império Romano, entrou pelo salão ao som dos tambores. Contorcia-se milimetricamente ao som da música, e em um final apoteótico, caiu aos pés da convidada, em sinal de reverência. Sendo aplaudida euforicamente por todos. Lilith levantou-se e a pegou pela mão direita, olhando no fundo de seus olhos castanhos.

- Me de a honra! – Falou para Jade. – Virou-se para os músicos e bateu duas palmas rápidas com as mãos, dando a entender que queria a música de volta. Segurando a mão da dançarina, Lilith a levou ao centro do salão. As duas dançaram como deusas do Olimpo, prendendo a respiração de todos os presentes.

Jade reconheceu de imediato a deusa serpente, a quem reverenciava em seus cultos secretos, sabia que um dia ela voltaria para agregar e resgatar os da sua raça, e esse momento acabara de chegar. Era uma privilegiada.

 

 

 

 

O pequeno templo da serpente ficava na periferia de Roma, era um local discreto e confortável, como todos os outros templos da capital era de arquitetura Greco-romana. No altar, ao centro, uma serpente de bronze de mais ou menos um metro e meio de altura. As reuniões ou cultos eram a portas fechadas, os membros eram poucos e selecionados.

Kadisha, a sacerdotisa, era uma mulher esguia, olhos de abutre e nariz adunco, cabelos negros e lisos, trajava uma túnica de seda branca e na cabeça, carregava um turbante dourado com uma pequena serpente de cristal ao centro.

Jade, Lilith e Saredh, aguardavam sentados em almofadas confortáveis. Quando aquela figura exótica entrou no átrio principal do templo, ficaram em pés.

Jade vestia uma bonita túnica de tom azul, os cabelos presos por pequenos ramos de oliveiras confeccionados em uma bela trança, no pescoço trazia um belo colar de bronze, os pés calçados por uma sandália rasteira feita de couro.

Lilith estava bela como sempre trajando uma roupa branca de seda pura bordada com florais vermelhos, na cabeça uma tiara de ouro branco com uma única pedra de rubi no centro, os cabelos vermelhos e exuberantes estavam soltos, no antebraço esquerdo uma bela braçadeira de ouro branco em forma de serpente, no dedo anelar esquerdo um anel com um enorme diamante e finalmente nos pés uma sandália espartana, amarrada até a altura dos joelhos.

Saredh por sua vez vestia-se de uma maneira sóbria, uma túnica de cor chumbo e outra em forma de capa azul marinho sobreposta, que usava para esconder a espada que sempre carregava consigo.

- A que devo a honra de tão ilustre visita! – Perguntou a mulher, com um tom de ironia nos lábios.

- Jade deve tê-la informado a nosso respeito. – Adiantou-se Saredh, ficando em pés.

- Sim claro! – Olhou para Lilith mirando em seus olhos. – Desculpem faze-los esperarem por tantos dias, nosso culto não é proibido, mas é secreto. Somente os eternos podem frequenta-lo. Tinha que ter certeza de que eram dos nossos.

Lilith e Jade levantaram-se.

- Tudo bem! Tenho a vida eterna para esperar. – Respondeu Lilith. – Mas não estou aqui para ingressar em seus cultos secretos à serpente. Quero apenas saber algumas informações.

- Em nome de quem? – Perguntou em tom arrogante a sacerdotisa.

Lilith levitou ao redor da mulher, parando bem em frente a ela. Encarou seu rosto. Os olhos estavam vermelhos e os caninos saltados para fora.

- Já tive paciência demais com sua prepotência. Você me cultua e finge não me conhecer!

- Como poderia ter certeza?

Lilith sabia que a maldita estava fazendo um joginho tolo. –“Vou arrancar a cabeça dessa vadia.” – Pensou.

Saredh tocou Lilith pelo ombro, sussurrando a seu ouvido.

- Vamos embora!

Lilith pousou no chão e respirou fundo.

- Muito bem, poderia provar para você, que estou dizendo a verdade, mas isso seria muito doloroso. Entre os da nossa espécie, só eu tenho o poder de matar um eterno, você sabia disso!

- Sim, nenhum vampiro tem o poder de matar o outro, há não ser a deusa mãe. Através do sufocamento. Mas isso são lendas e crendices do passado. E além do mais, nossa deusa ficou enterrada no Egito para sempre!

Outros vampiros entraram no templo, eram uns quinze. Saredh e Lilith perceberam se tratar de uma cilada. A sacerdotisa queria desmascarar aquela farsante na frente de todos.

Saredh pegou a "deusa" pela mão.

- Vamos. – Disse imperativo.

- Chega! – Respondeu irritada e esquivando-se. – Não vim até aqui para ser tratada como uma impostora, por essa sacerdotisa de merda. Mereço respeito! – Seus olhos ardiam como fogo.

Os outros fizeram um circulo deixando Lilith e Saredh ao centro.  Jade quebrou o silêncio e a tensão. Até o momento estava atônita com toda aquela situação. Não entendia ao certo onde aquela louca queria chegar.

- O que está acontecendo aqui, mesmo que ela não seja quem está dizendo quem é, não podemos tratar um dos nossos assim! – Falou chamando a atenção para si.

- Cale-se, você não pode se pronunciar no templo, eu não te autorizei. – Gritou Kadisha. – Vou provar para todos que essa mulher não passa de uma farsante. – Terminou a frase com um tom de ódio na voz.

Jade saiu do circulo e colocou-se ao centro, do lado esquerdo de Lilith, segurando em sua mão. Havia reconhecido a deusa e ficaria ao seu lado nem que isso lhe custasse a própria vida.

- Ninguém encosta um dedo nela. – Falou Saredh, sacando uma espada da cintura. Colocando-se na posição de atenção, dobrando ligeiramente o joelho direito e com a arma em riste.

Os outros se afastaram apreensivos.

- Basta! – Esbravejou Lilith com toda força de seus pulmões. Agarrando a sacerdotisa arrogante pelos cabelos e fazendo-a ajoelhar-se a seus pés. – Cadela imunda, vou provar para todos que estou dizendo a verdade. Segurou a mulher pelo pescoço e a elevou por sobre o seu corpo. A outra começou a se debater sem ar, seu corpo começou a sofrer uma metamorfose assustadora, ressecando-se quase que totalmente sob a mão direita da" deusa". Soltando um grito de raiva, Lilith arremessou a pobre coitada a metros de distância, que caiu convulsionando em um canto do templo. Os outros ficaram tomados de medo.

- Alguém mais se habilita! – Perguntou Lilith tomada de ira e encarando a todos feito um cão raivoso.

Kadisha se contorcia e gritava de dor, com as duas mãos no pescoço. A serpente aproximou-se lentamente.

- Levanta-se vadia, apesar de estar com muita vontade, não vou mata-la. Mas está destituída de seu cargo, não quero uma adoradora feito você. Suma da minha frente para sempre, por que não vou te dar uma segunda chance. Os outros ficam. – Disse virando-se.

A coitada saiu do templo com dor e desmoralizada. Arrastando-se feito um verme,seu longo reinado chegara ao fim.

Até os ânimos se acalmarem, houve um longo tempo de silêncio. Tomados por um estranho sentimento, os vampiros colocaram-se de joelhos em frente a deusa serpente.

- Levantem-se! – Disse Lilith. – Vamos embora Saredh, não temos mais nada a fazer nesse lugar. – Segurando na mão de Jade, de súbito. Disse: – Você vem conosco, não merece ficar entre esses idiotas...

 

 

 

 

Na noite seguinte ao incidente no templo da serpente, um eterno, por nome Amon procurou Saredh para desculpar-se. Era magro, alto, pele morena, olhos verdes, cabelos raspados, vestia uma túnica preta, com um turbante prateado na cabeça.

Saredh entrou no átrio principal da mansão, aproximando-se do outro que estava tomado de distração, pela beleza do lugar. O espaço físico do ambiente era grande e possuía a mesma elegância clássica do proprietário. As oito colunas gregas cobertas com porcelana branca, deixavam o espaço em forma de octágono. Quatro vitrais, dois de cada lado saiam do nível do chão até o teto, com mosaicos que faziam reverência às principais divindades gregas. Um lustre de cristal bruto descia do centro do teto suspenso por uma armação de bronze, o piso era feito de mármore de um tom verde claro, a porta central era alta e elegante, feita de marfim com fechaduras, ferrolhos e trancas de ouro e prata.

- Boa noite! – Falou Saredh em tom seco.

O outro voltou a si, estava absorvido com tantos requintes.

- Eu vim em paz, mestre! – Falou em um tom um tanto sem graça, fazendo uma reverencia de respeito.

- Seja breve. – Falou Saredh com rispidez na voz. – Vestia uma túnica cor de vinho com uma capa com capuz preta que deixavam apenas metade do rosto exposto, os pés estavam descalços.

- Sei que nos procuraram ontem por que existe algum interesse de vossa parte a nosso respeito. – Terminou a frase e respirou fundo, estava apreensivo.

- Não quero perder meu tempo falando sobre ontem! O que o trouxe aqui hoje. – Tirou o capuz colocando o rosto à mostra. Sua expressão não mostrava simpatia.

- Vim pedir vosso perdão em nome dos demais. – Falou humildemente.

- Perdões aceitos, pode se retirar agora. – Disse indicando com a mão direita a porta principal do átrio.

- Tente nos entender. Quem maquinou aquela cilada, foi nossa antiga sacerdotisa, Kadisha! Ela nos induziu aquela situação patética. – Argumentou tentando reverter a situação constrangedora.

- Não me interessa. Vocês não tinham o direito de nos receber daquele jeito, independente do que, ou de quem fôssemos, somos eternos iguais a vocês. – Demostrou que não estava interessado em continuar aquela conversa.

- Eu entendo. – Falou desapontado.

- Sempre me mantive a distância de vocês, mas nunca lhes faltei com respeito, nem nunca os tratei como inferiores a mim. Aliás, vim para Roma por vossa causa. Tinha interesse em saber quem eram e onde estava sua origem. Ontem já tive as resposta que procurava! – O tom de voz já mostrava um ar de irritação.

- Perdão, mestre. Mas não nos julgue por um erro a que fomos induzidos. – Argumentou mais uma vez.

- Aprenda meu caro. Vampiros não podem ser induzidos, senão ficam fragilizados! Um líder de verdade tem que promover a união dos seus iguais, e não o contrário. Aquela imbecil, pelo que pude perceber, tratava vocês e seus amigos como páreas dela.

O outro nada respondeu.

- Sua sorte é que sou mais tolerante do que Lilith, por ela não estaria perdendo tempo com você aqui.

- Eu sei. Mas vim humildemente até vossa presença...

Saredh suspirou.

- Tudo bem! Tenho algumas perguntas a fazer mesmo, não vamos mais perder nosso precioso tempo com pequenos rancores.

- Estou a sua total disposição. – Esboçou um sorrisinho sem graça nos lábios.

- Na verdade, tenho curiosidade de saber qual a origem de vocês. Por que quando formamos o pentagrama, nossa maior regra era não passar o conhecimento eterno para mais ninguém, devendo assim, os que gostavam de sangue humano executar suas vitimas logo após a mordida. E como também fazíamos sacrifícios de sangue ao deus Seth, não havia a necessidade de fazer vitimas fora do templo. Enfim, um de nós quebrou as regras. Eu não fui, por que não gosto do sangue dos homens. E Lilith, bem ela com certeza também não fez isso. Portanto um dos outros antes da morte cometeu alguma infração. Quero saber o que sabe sobre sua origem, se existem outros além de vocês...

Amon começou argumentar, enquanto falava com Saredh se movimentava de um lado para o outro, andando com pequenos passos e gesticulando muito com as mãos.

- Eu conheci o segredo dos eternos atravéz de Kadisha, estava à beira da morte, sucumbindo lentamente em meu leito. Já havia gasto boa parte da minha fortuna com médicos, curandeiros e tratamentos convencionais e alternativos. Sem resultado positivo. Ela apresentou-se como sacerdotisa de uma seita que nunca ouvira falar na vida. Mas naquela altura da situação, já não tinha muita escolha. Até hoje não sei ao certo o que motivou ela a aproximar-se de mim. Mas bem, isso não importa agora. Morava no Egito, ao sul do rio Nilo, ela me ofereceu a cura de os meus males e em troca queria fidelidade. Me contou a historia de uma rainha (uma espécie de mulher serpente), que havia sido presa viva em um sarcófago pelo próprio filho, que eu já tinha escutado tantas vezes durante toda minha vida como uma lenda regional sobre Faraós do Egito. Mas aquilo para mim pouco importava, só não queria morrer naquela altura da vida, era um homem jovem tinha apenas quarenta anos. Ela me ofereceu a vida eterna e eu aceitei. Naquela mesma noite fui iniciado. Passei uma semana inteira me queimando em febres altas e tendo convulsões horríveis, pensei que tinha sido enganado mais uma vez e que morreria. Passado o prazo da transmutação, comecei a sentir melhora em meu corpo. Em menos de quinze dias estava totalmente curado. Foi então que eu descobri que havia me tornado um ‘eterno’. Procurei Kadisha mas ela havia fugido do Egito não sei por qual motivo. Descobri algum tempo depois que ela tinha vindo para Roma, vim atrás dela para entender o que havia acontecido comigo, queria esclarecer minhas dúvidas, essas coisa, entende... Chegando aqui. Não foi difícil localizá-la, descobri o culto a serpente e consequentemente encontrei Kadisha. Os rituais praticados no culto me fizeram entender toda liturgia e todos os dogmas da seita. Éramos herdeiros de Onir, um dos quatro iniciados pela deusa mãe, Lilith. – Terminou parando de frente ao outro e  olhando em seus olhos.

- Então foi ele! Onir. – Falou admirado, desviando o olhar como quem busca alguma lembrança antiga.

- Antes de morrer ele apaixonou-se por Kadisha e a eternizou, segundo ela mesma disse. Falou também que houve tempos difíceis no Egito, quando o Faraó, sucumbiu o pentagrama. Teve que ficar escondida para não morrer também. Só depois de muito tempo retornou secretamente com o culto a Deusa em uma pequena província ao sul do Egito. – Continuou o outro.

- Se Kadisha cultuava e pregava o retorno da deusa serpente e se ela foi iniciada por Onir, por que reagiu daquela forma, quando ficou cara a cara com Lilith?

- Não sei, talvez por pura vaidade, ou talvez por que falava de algo que não queria que acontecesse de verdade. Talvez medo de perder a liderança que exercia sobre nós...

- Tola! E vocês são em quantos ultimamente. – Andou alguns passos ficando por um tempo de costas para o outro.

- Somos aquele grupo que o mestre viu ontem a noite. Quinze. – Falou Amon.

- Sabe dizer se existem outros além de vocês. – Voltou a ficar de frente mas manteve  distância do outro.

- Imagino que sim. Não se pode controlar o instinto animal e a sede de sangue de todos.

- Então perdemos o controle. É isso!

- Infelizmente, sim! Também existe um que saiu do nosso convívio porque não gostava de estar entre nós. O nome dele e Agnus. Mais conhecido como pássaro solitário, por possuir asas e ter o dom de voar.

Saredh mostrou um pouco de inquietação.

- Em todos esses meus séculos de vida, nunca ouvira falar de grupos ou de eternos solitários. Foi justamente esse o motivo que me trouxe a Roma. Porque ouvi boatos sobre vocês. Não se consegue esconder por muito tempo, sem que surja uma lenda ou uma história a nosso respeito. Mas isso é primordial para nossa existência, se formos desmascarados, os humanos tem o poder de nos matar decapitados. Foi isso o que aconteceu com o pentagrama, o Faraó descobriu nossos segredos. Precisamos mais do que nunca nos unir e nos proteger, aprender a controlar nossos instintos, nossas sedes. Enfim, não podemos nos mostrar às claras...

- Se puder fazer alguma coisa para ajudar.

- Convoque uma reunião extraordinária para hoje a noite no templo. Diga que estarei lá. – Falou imperativo.

- Sim, pode deixar. E... quanto a Kadisha, o que será dela. Soube que ela fugiu envergonhada e enfurecida para o deserto...

- Ela escolheu seu próprio destino. O deserto é um bom lugar para reflexão! – Falou indiferente.

- Obrigado por me ouvir mestre. Já usei por demais seu precioso tempo.

- Até a noite.

- Só mais uma pergunta, antes de ir.

- Diga.

- A "deusa" estará presente.

- Imagino que não. Vamos dar um tempo a ela. Os deuses são temperamentais!

 Saredh o acompanhou até a porta, Amon retirou-se eufórico. Conhecera o único mestre dos ‘eternos’ vivo, e quem sabe, com um pouco mais de sorte, poderia usofluir da presença real da ‘deusa’ mais uma vez.

 

 

 

 

O general Teófilo, retornou vitorioso de mais uma batalha. Essa fora curta. Durara apenas alguns poucos dias. No período de sua ausência, no entanto, não conseguira tirar da cabeça a figura daquela mulher misteriosa, hóspede de seu amigo Saredh. Sonhou possuí-la com todo desejo de sua alma, seu sangue fervia por ela. Talvez naquela noite fosse oportuno fazer-lhes uma visita.

“As mulheres gostam de homens vitoriosos”. – Pensou.

Não podia mais esperar, sua alma estava totalmente dominada por aquela mulher, como nunca acontecera antes em toda sua vida, até aquele exato momento em que a conhecera.

 Possuía a mulher que quisesse, sem fazer o mínimo esforço. Mas Lilith era diferente, tinha uma áurea de mistério que ele precisava desvendar. Há muito tempo também, desconfiava que algo de diferente pairava sobre seu amigo Saredh. Já o conhecia há anos, e ele, mantinha sempre aquela mesma jovialidade. Ouvira histórias, que ele era uma espécie de ser eterno, um feiticeiro, um mago, um bruxo do Egito, ou alguma coisa do gênero. Nunca porém, questionara pessoalmente o próprio Saredh. Mas agora, aquela mulher, trouxera a tona em seus pensamentos, aquelas dúvidas. Se por acaso fosse verdade que seu amigo possuía o dom da vida eterna, estava na hora de descobrir.

Saredh chegou ao templo da serpente, quando a noite já havia caído sobre Roma. Os ‘eternos’, o aguardavam ansiosos. Amon tomou a frente do grupo e recebeu o mestre com reverência. Estavam todos sentados sobre almofadas e separados por uma belo tapete persa branco que ficava no centro, ficando em pés quando Saredh entrou pela porta. O vampiro, como sempre estava vestido de forma elegante e sóbria. Uma bela túnica de linho azul claro com outra azul marinho sobreposta, os pés calçados por sandálias de pescador confeccionadas com o mais nobre couro.

- Sentem-se, por favor! – Disse o mesmo.

Todos obedeceram silenciosos. Estavam tomados por uma espécie de energia magnética, que fluía daquele homem.

- Sente-se mestre! – Adiantou-se Amon, que também pela ocasião vestia-se com seus melhores trajes, uma túnica branca sobreposta por outra com listras coloridas na vertical, na cabeça como era de habito, um turbante verde escuro com uma esmeralda no centro, os pés calçados com sandálias de pescador, iguais aos do visitante.

Os demais também estavam elegantemente vestidos e ornamentados.

Saredh sentou-se entre eles. Silêncio!

- Bem senhores, o motivo da minha visita é muito simples. Quero conhecer vocês mais de perto. Saber quem são como vivem. E também, entender, através de suas histórias, o que aconteceu no passado. Já que somos iguais, precisamos nos agregar para nos proteger. Existem muitos boatos sobre vampiros aqui no Império. Se formos descobertos de fato, será o fim de nossa espécie. Cheguei até vocês, através dessas estórias. Portanto vocês estão vivendo sob um segredo frágil. Precisam tomar cuidado. Muito bem, vamos as apresentações!

Todos se apresentaram em uma sequencia cronológica, ou seja, pelo tempo que haviam se tornado vampiros. Contaram suas historias, seus estilos de vida no dia a dia, ocupações, gosto por sangue humano ou não. Falaram sobre os cultos, reuniões secretas, entre outras coisas. Saredh pode então compreender, que a muito tempo, o dom da vida eterna já havia perdido o controle e que aquele grupo não era único, deveriam existir muitos outros, em grupos ou não, mas já estavam espalhados pela Terra. Onir havia quebrado o mais importante e sagrado dos votos, e isso, já não tinha mais como voltar atrás.

Teófilo aguardava no átrio principal. Havia sido atendido por um dos muitos serviçais da casa. Estava com sua indumentária de general do Império Romano. Queria causar impressão.

Lilth entrou exuberante pelo salão. O homem estava distraído entre as muitas obras de arte espalhadas pela sala octagonal. A beleza e o bom gosto andavam juntos naquele ambiente.

A vampira trajava um belo vestido verde claro de seda pura, na cabeça uma linda tiara de ouro cravejada de pequenos brilhantes, brincos tipo argolas grandes pendurados nas orelhas e uma bela braçadeira dourada no antebraço direito, os pés como sempre calçados por sandálias espartanas. Os cabelos ruivos estavam soltos deixando sua figura ainda mais sedutora.

- General! A que devo a honra!

Ele estremeceu dos pés a cabeça ao ouvir a voz da mulher.

- Saredh se ausentou por algumas horas! – Continuou ela.

O homem virou-se, ficando de frente para aquela mulher, que naquela noite parecia a figura da deusa Afrodite. Ficou mudo por alguns instantes. Depois com a mão direita, segurou a mão dela, dando um beijo delicado.

- Me perdoe se estou sendo inoportuno, mas passei todos esses dias pensando em você, queria vê-la outra vez. – Foi direto ao ponto, não era um homem de muitos rodeios.

- Me sinto lisonjeada! – Ela observou a jugular do homem com um interesse animal, os olhos mudaram de cor por um instante, precisava se controlar. Respirou profundamente, desviando o olhar da visão do outro.

- Está tudo bem, minha cara? – Perguntou intrigado.

- Sim. Apenas um pouco de indisposição. – Disfarçou sua vontade de sangue.

- Me desculpe. Se estiver incomodando me fale que irei embora.

- De forma alguma. – Respondeu ela tocando em seu braço musculoso.

O sangue dele ferveu por entra as veias, e ela, pode sentir o odor. Não iria resistir por muito tempo, mas, precisava se controlar ao máximo. O que faria com ele depois de sugar-lhe o sangue, afinal de contas, ele não era um andarilho do deserto, nem um perdido da noite.

- Venha, vamos para a varanda. Não posso ser indelicada com o melhor amigo de meu anfitrião.

 Segurou na mão direita do general e saíram para a varanda em silêncio. O coração de Teófilo batia tão alto que ele podia escuta-lo. Não conseguia entender qual era a força que aquela mulher ruiva exercia sobre ele. Sentaram-se em umas poltronas e ficaram quietos, observando Roma que àquela hora adormecia sob as luzes das rochas espalhadas pelas ruas. Ele, precisava se controlar para não se mostrar fraco, e ela, precisava ser forte e manter o controle.

Amon acompanhou Saredh até a saída do templo, trocaram algumas últimas palavras e se despediram. Ficou imaginando quantos de sua espécie estavam espalhados pelo mundo, seria praticamente impossível reunir a todos para se tornarem um grupo forte, não tinha pistas da existência dos outros. Como eram, onde estavam. O poder da vida eterna havia saído completamente do controle. Sua raça corria um risco irreversível. Sabia que a exposição faria rolar muitas cabeças. A guerra pela sobrevivência entre humanos e eternos estava declarada. A única coisa que poderia fazer naquele momento, seria tentar preservar pelos menos os adoradores da serpente, para que ele e Lilith também não corressem riscos mais uma vez.

A lua estava cheia e bela no céu, olhou para ela e sentiu aquela mesma sensação que dominara seu coração no Egito, na noite em que seus amigos do Pentagrama foram dizimados. Em toda sua longa vida, nunca havia parado para pensar na possibilidade de existirem outros semelhantes a ele. Depois de sua fuga, quando retornou ao reino dos Faraós, dedicou sua vida única e exclusivamente a procura de Lilith. Como ela estava presa e ele nunca consumira sangue humano, não podia imaginar que um dos outros tivera quebrado o principal código de preservação, antes de serem mortos. Estavam definitivamente em meio a um jogo muito perigoso.

Os dois estavam tensos, cada um por seus motivos particulares, mas não conseguiriam medir forças com aquela energia que pairava no ar. Teófilo a encarou corajoso. Não conseguira resistir e a colocou de pé, envolvendo-a em seus braços. Ela deixou se levar. Beijaram-se ansiosos e famintos. Em pouco tempo, estavam nos aposentos dela. Ficaram nus com uma urgência avassaladora, sem dizerem uma palavra.

 Lilith o jogou sobre a cama e se colocou por cima dele, como gostava de fazer, era dominadora por natureza.

O cheiro de testosterona e sangue daquele homem despertou nela seu instinto animal adormecido.  Há muito tempo não sentia o corpo de um homem sob o seu e há muito tempo não bebia sangue fresco de um ser tão viril. “Sabe-se lá com que tipo de sangue Saredh a alimentou para trazê-la de volta a vida.” – Pensou.

O general gemia em êxtase sob seu domínio. Ela cravou-lhe os caninos na jugular, sugando todo líquido da vida que corria em suas veias. Seu corpo entrou em um espasmo, como quem sente um orgasmo intenso. Soltou um grito de prazer e desmaiou sobre o homem.

Saredh chegou em casa quase pela manha, ficara praticamente a noite toda, vagando de taberna em taberna. A cabeça ocupado por pensamentos nefastos. Jogou-se exausto sobre sua cama. Uma das criadas falhou-lhe alguma coisa que ele nem deu atenção. Adormeceu.

Teófilo acordou, procurou Lilith pela cama e ela não estava lá. Levantou-se nu. A mulher estava na varanda do quarto olhando o sol nascer sobre Roma, vestia uma túnica de seda branca, que com a transparência, delineava seu corpo. Estava vigorosa, mais bonita que na noite anterior.

O general sentiu uma pequena fisgada no lado esquerdo do pescoço, levou a mão sobre ele e percebeu dois pequenos orifícios. “Marcas de uma noite de amor.” – Pensou.

Afagou o corpo da mulher em seus braços fortes, segurando-a pelo ventre. Roçou seu queixo no pescoço dela, beijando depois suavemente.

- Volte para a cama. – Sussurrou em seu ouvido. Estava visivelmente excitado.

Ela virou-se de frente para ele e o encarou nos olhos. O rosto estava transfigurado, pele branca, iris dos olhos vermelhas, caninos a mostra.

Ele soltou um grito de pavor.

- Você não pode ir embora daqui! – Disse ela. - Encarando o homem nos olhos.

O general não conseguia pronunciar palavra. “Que tipo de visão demoníaca seria aquela.” – Ficou imóvel e mudo.

Saredh acordou com o grito de pavor de Teófilo. Correu para a alcova de Llith. Não precisou de muito tempo para entender o que havia acontecido naquela noite.

- O que você fez. – Perguntou assustado!

Ela saiu do quarto sem dar resposta alguma, correndo para o lado externo da casa.

- Que tipo de demônios são vocês. – Gritou o general. – Saindo do seu estado de choque.

- Acalme-se você também e vista-se. Vou falar com ela e depois volta para conversar com você.

Os criados estavam aglomerados na porta do quarto.

- E quanto a todos vocês, procurem cuidar de suas ocupações. E, não quero ouvir um comentário sobre o que aconteceu. – Gritou Saredh. – Eles obedeceram de imediato, nunca tinham visto o patrão tão exaltado.

Lilith estava no Jardim da casa. Era um belo e grande jardim de lírios multicoloridos.

- O que você fez. – Perguntou com a voz baixa para não ser escutado.

- Você sabe o que fiz. Não consegui resistir, foi mais forte do que eu.

- Ele não pode sair daqui vivo. Senão estaremos mortos. – Estava com um tom de preocupação na voz.

- Você não devia nunca ter me tirado daquele sarcófago... – Pronunciou um pequeno choro.

- Não diga isso. Faria quantas vezes fossem necessárias. Precisamos decapita-lo com urgência, antes que comece o processo. – Fez um pequeno gesto de carinho no rosto da amiga.

- Se ele fosse um mendigo qualquer, ou um andarilho do deserto. Seria fácil. Mas é o "grande general do Imperio Romano". Como vamos dar cabo de uma criatura dessas. Todos sentiriam sua falta.

- Ninguém deve saber que ele veio para minha casa. Quando descobrirem, estaremos longe. Ou então vou tentar explicar o que aconteceu e convencê-lo a aceitar.

- E os criados?

- Não abrirão a boca. São de minha total confiança. Estavam apenas curiosos. Além do mais, são os mais bem pagos do Império.

- Então seja rápido, por favor, e não o deixe sofrer. – Limpou as lágrimas do rosto com o dorso da mão direita.

- Fique aqui. Já volto. - Saiu apressado.

Depois de acalmar os criados, Jade correu em direção ao jardim da casa, sabia que algo de errado estava acontecendo. Encontrou com Saredh pelo caminho que não teve tempo de lhe explicar o que estava acontecendo. Disse apenas secamete.

- Fique com Lilith.

Saredh entrou no átrio principal da casa apressado, correu para seu quarto e pegou sua espada, voltando em direção aos aposentos de Lilith. O mesmo estava vazio. Teófilo havia conseguido fugir. Embanhou a espada na cintura e voltou mais que depressa para o jardim.

- Vamos embora, Teófilo conseguiu evadir-se. Em breve estará aqui com uma tropa para nos prender. Tenho uma passagem secreta em meu quarto, feita para situações de emergência.

Os três saíram a passos largos. Era um túnel muito bem engenhado, construído para fugas caso o Império fosse invadido algum dia. Andaram por ele, por mais ou menos meia hora. A saída era em uma clareira ao sul da cidade. Ao chegarem, foram surpreendidos por uma tropa de cem homens. A frente, estava o general, montado em seu cavalo cor de ébano.

- Não os mate! Quero esses demônios vivos! – Esbravejou para a tropa com ódio na voz. - Surpreso Saredh, não deveria. Sabe muito bem que conheço seu covil melhor que você, só não sabia que hospedava a filha do demônio nele. – Olhou para Lilith com nojo e desprezo.

Saredh colocou-se a frente das duas, com a espada em punho.

- Ninguém toca nelas. – Gritou!

- O que vai fazer, nós estamos em um numero maior. Não me diga que você também esconde caninos em sua boca.

A excitação do momento despertou o instinto de vampiro dos três. Gruniam feito cães em posição de defesa.

- Não lhes disse. São demônios, filhos de Casinfanu. Peguem-nos vivos.

Os soldados formaram um circulo ao redor dos três. Alçaram uma rede sobre eles, sem lhes deixar saída.

Bem-Shakar nutria uma atração indiscutível por Lilith, mesmo achando-a tola e inconsequente a admirava por ela ter sido uma transgressora como ele. Não poderia deixa-la naquela sinuca de bico em que ela se encontrava agora. Sua figura bela e imponente, sobre uma rocha, próxima ao lugar onde encontravam-se os vampiros capturados e o exército do general romano, ergueu as duas mãos para o alto, pronunciando palavras que mais pareciam sons de trovões. Na sequência, os céus foram tomados por uma enorme nuvem negra, formada por um enxame de milhares de abelhas que se precipitou sobre a tropa. Cavalos e cavaleiros foram atingidos, não sobrando um em pés, ou montado. Na sequência, raios e trovões, trouxeram uma tempestade torrencial.

Atordoada e aos gritos, a tropa tentou  proteger-se em algum lugar seguro.

- Venham. – Falou enquanto tirava a rede que cobria os três. – Tenho um abrigo para vocês.

Teófilo levantou-se cambaleante e sem senso de direção. Uma espada decepou sua cabeça, separando-a do corpo. Jade estava tomada de fúria, sacou a espada de Saredh por puro reflexo, impulsionada pelo ódio que fervia em suas veias.

- Vamos depois vocês se divertem. – Falou o ‘Filho da alva’, com seu tom sempre irônico.

Saíram dali e se refugiaram em umas cavernas próximas.

O enxame e a tempestade passaram como em um passe de mágica, deixando um rastro devastador. O grupo de soldados, liderados por Teófilo, foi exterminado, não sobrando um homem vivo.

Enquanto isso outra tropa fora enviada a casa de Saredh.  Saquearam tudo o que havia de valor, mataram os criados a fio de espada e depois atearam fogo no que sobrou.

Algumas semanas depois, um pequeno grupo formado por cinco homens encapuzados e misteriosos, armados de espada. Invadiram o templo da serpente durante um culto. Decapitaram todos os devotos presentes. Os adoradores da deusa foram extirpados da capital do Império Romano. O grupo se intitulava, Guardiões da Luz. Saiam de cidade em cidade na busca por seres das trevas.

Os três eternos, depois de ficarem um pouco de tempo no deserto, viajaram para Grécia, onde Saredh possuía muitas propriedades. Ali viveriam por um longo período de tempo, sem serem importunados.

Bem-Shakar, esse como sempre, aparece e some, quando lhe é conveniente.

 

 

 

 

A Terra é um planeta controlado pela energia da renovação. O tempo sempre se encarregada de mudar o rumo da história. Da mesma forma em que faz surgir grandes impérios, também os torna apenas civilizações do passado. Como em um passe de mágica, faz aparecer outros povos, outras culturas, outros costumes. O homem caminha incerto entre invenções e descobertas. Aprende a dominar novas armas, a falar novas línguas. Domina e é dominado por suas próprias armadilhas. Mitos, deuses e ídolos, surgem, como um grande reflexo do homem no espelho, na tentativa de se entender. Na busca da alma, do espírito e das coisas materiais também. Tudo muda sempre a cada segundo, nada é como ontem e nunca será como hoje. O futuro, esse temido monstro que devora tudo o que vê pela frente, tem urgência. Apenas nos deixa enxergar o passado, sob a óptica das sombras, das impressões e das lendas. Induzindo-nos a seguir para frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo Hum.

 

 

Enzo.   

 

 

ouvia vozes distantes e desconhecidas, sua consciência não permitia entender o que acontecia a sua volta. Eram sons agitados e urgentes. Luzes vermelhas sobressaiam por entre a escuridão em que se encontrava. Estava em meio a um pesadelo.

Um choque elétrico, partindo de seu peito, percorreu por todo seu corpo, parecia ter levado um coice de um cavalo grande. Misturado ao murmúrio de pessoas o som estridente de uma sirene. Sentiu o corpo ser elevado. De repente, sumiu dentro de si mesmo. Sillencio!

- Enzo! – Uma voz feminina e delicada o chamou pelo nome.

Acácia possuía o frescor da juventude. Pele de porcelana branca, olhos violetas, lábios vermelhos e carnudos, os cabelos negros a luz do sol refletiam tons azulados, estavam presos à cabeça bem desenhada, por uma bela tiara prateada. Vestia uma túnica de linho fino, de tom perolado, amarrada a altura da cintura por um cinto de algodão cru. Era esguia, mas possuía curvas generosas, suas mãos eram delicadas. Uma sandália de couro cobriam os pequenos pés.

- Enzo. – Chamou mais uma vez o homem que estava adormecido sobre a grama.

Era um jovem bonito, alto, corpo atlético, pele bronzeada pelo sol, cabelos fartos, encaracolados e loiros, olhos castanhos claros, lábios bem desenhados. Vestia uma camiseta branca, calça jeans de lavagem escura, os pés calçados por um bonito tênis azul claro. No pescoço, carregava uma corrente fina, de prata, com uma medalha em forma de um trevo. Ao lado esquerdo caído no chão, um boné de aba aberta, branco e com escritas azuis.

O som do seu nome foi entrando lentamente em sua consciência, os olhos abriram devagar e as imagens foram se formando aos poucos. A mão direita de Acácia tocava cuidadosamente em seu rosto.

Era a imagem de um anjo.

- Levante-se. – Disse ela. Temos um longo caminho pela frente, precisamos chegar a Galmatama antes que o sol se esconda.

“O que, chegar onde? Como ela sabia seu nome?” – Pensou ele atordoado.

Olhou a sua volta, era um lugar totalmente estranho para ele. Um campo enorme, todo gramado, com pequenos arbustos e miúdas flores silvestres com várias tonalidades. Sentou-se e encarou o rosto daquela mulher, que de joelhos, estava a sua altura.

- Sou Acácia, filha de Aileen, o mestre! Tenho a missão de leva-lo até nossa cidade. – Falou, ficando de pés.

Ele levantou-se meio confuso.

Pôde ter então, uma visão melhor do lugar onde encontrava-se. Era um vale rodeado de montanhas. Ao longe, uma floresta densa, composta por árvores muito altas. 

- Iremos atravessar aquela floresta. Não podemos perder mais tempo. – Ao terminar a frase soltou um assovio. – Espero que saiba montar. – Olhou para ele com um sorrisinho no rosto.

Como em um passe de mágica, as belas imagens de dois lindos animais apareceram vindo ao encontro deles. Um era branco, como a neve, robusto, músculos bem torneados, no centro da cabeça um único chifre denunciava que se tratava de um unicórnio, a crina era perfeitamente bem cuidada. O outro era avermelhado, tão belo e tão robusto quanto o primeiro, porém, era um equino comum. Enzo ficou emudecido.

“Que lugar seria aquele, e que situação surreal estava vivendo”. – Pensou.

Os animais se aproximaram, ficaram em silêncio. Acácia os cumprimentou com um afago carinhoso em suas crinas. Montou o unicórnio com destreza de amazona.

- Vamos, e não se esqueça de pegar o seu elmo que está no chão. – Falou, encarando os olhos daquele rapaz de trajes estranhos.

- Elmo! – Olhou para o chão e viu seu boné. Soltou uma risada contida, pegou o mesmo e colocou na cabeça.

O animal relinchou para ele, convidando-o a montar. Ele mais que depressa subiu no lombo do cavalo com muita habilidade. Era um conhecedor exímio da espécie, sua especialização na faculdade de medicina veterinária, fora justamente em equinos.

“Com certeza, estava dentro de um belo sonho. Se assim fosse, levaria aquele delírio até o fim. Não iria acordar, para ver até onde aquela situação o levaria.” – Pensou.

Acácia levantou a mão direita com firmeza, soltando um assovio agudo em seguida. Os animais correram em disparada em direção à floresta.

Andaram boa parte do trajeto em silêncio. Uma sensação estranha dominou o coração de Enzo. Nunca em toda sua vida tivera um sonho tão longo e tão real. Cheio de vida, de cores, de cheiros e impressões. O coração acelerou em sinal de alerta.

- Nunca estive aqui antes, qual o nome desse lugar. – Perguntou receoso.

- Estamos na floresta de Galmatama. É o ponto de divisão entre nossa cidade e o ‘Vale dos espíritos’.

- Sim, eu sei. Estamos em uma floresta. Mas...

“Que absurdo perguntar o que ele pensou”.

- Que planeta nós estamos. Isso é real, ou estou sonhando!

- Como assim que planeta nós estamos. – Retrucou com outra pergunta e sorriu. - Na Terra horas, onde mais!

- Que Terra. Sua Terra... – Puxou as rédeas do animal obrigando-o a parar. Apesar de sua memória estar encoberta de nuvens, sabia que não pertencia aquele lugar.

- Não podemos parar aqui, devemos seguir em frente. Existem criaturas sombrias nessa floresta, não devemos perder tempo. Elas se manifestam com a escuridão da noite. Vamos adiante, estamos quase chegando.

- Quero só entender o que está acontecendo. Isso é um sonho ou o que?!

- Não, não é um sonho. – Respondeu ela rispidamente. – Também, não é fruto da sua imaginação. – Mas não tenho autoridade para responder suas perguntas. Minha missão é única e exclusivamente, leva-lo até Aileen.

- Quem é Aileen.

- Nosso mestre!

- Entendi. Eu estou morto e você é um anjo que está me conduzindo a presença do Divino. E aqui, vocês o chamam de Aileen. E não de Deus, como o conheço no meu mundo.

Ela o respondeu com um olhar intrigante. Ficaram em silêncio novamente.

Enzo cerrou os olhos, tentando absorver melhor aquela situação estranha. Ouviu sons de pneus rangindo no asfalto, vidros quebrando e ferragens amassando. Imagens confusas dominaram sua mente. Respirou fundo e abriu os olhos novamente. Iria acordar em sua confortável cama e suspirar aliviado.

 Porém, para sua surpresa. Estava exatamente no meio da floresta, ao lado daquela garota estranha que montava um unicórnio branco.

- Não se aflija. Suas respostas virão todas a seu tempo!

Foi dominado por uma sensação de angustia. Suspirou fundo e ficou completamente mudo.

“Como uma pessoa cética como ele, poderia estar em uma situação tão irreal como aquela”.

Uma enorme muralha de pedras surgiu a frente, indicando o fim da floresta. Chegaram a Galmatama próximo ao pôr-do-sol.  Cavalgaram por uma estrada de terra batida que contornava o grande muro, por alguns segundos. Até chegarem ao portão principal, um enorme obstáculo de madeira crua e maciça, que se abria por um mecanismo engenhoso, controlado por quatro sentinelas que ficavam em guaritas no topo da muralha, de onde se podia enxergar o horizonte. Era chamado de ‘Portão Sul, ou Portão principal’, devido sua localização na cidade.

Galmatama era próspera e muito bem estruturada, possuía ruas pavimentadas e um sistema de cisternas que distribuía água potável do centro a periferia, até os vilarejos mais distantes. Prédios e casas de pequeno porte, construídos com pedras brutas. A alameda central era rodeada por ypês e cerejeiras de todos os tons, cruzando com outras ruas e ruelas menores, todas arborizadas. Por ter sido edificada sobre uma planície, possuía poucas ladeiras, ou quase nenhuma na verdade. Era totalmente murada, e as saídas, eram através dos doze portões existentes. Sendo os principais, o sul e o norte. Um rio largo cortava a cidade ao meio. Existia desde o principio dos tempos, construída através dos milênios. Sua principal população era formada pelo ‘belo povo’, como eram conhecidos os elfos. Mas, também era habitada por homens, mulheres e crianças humanas, esses por sua vez, viviam em uma pequena província ao leste, próximos ao limite com o deserto de Ramara. A parte norte fazia fronteira com as montanhas de Kizar e a parte leste com o Vale das sombras. A parte subterrânea da cidade era composta por enormes galerias, que eram usadas como refúgio em tempos difíceis, possuiam infraestruturas iguais as da parte superior ou terrestre. A entrada para as galerias era de conhecimento apenas dos membros do conselho, isso, para evitar invasores indesejados. Como fazia muito tempo que Galmatama não enfrentava uma guerra, elas não eram usadas, apenas um grupo seleto de elfos, cuidava de sua manutenção.

Ao entrarem na cidade, os portões fecharam-se atrás de si. Enzo ficou petrificado. Homens, mulheres e crianças circulavam pelas ruas. Todos donos de uma beleza singular.

 

“Estava morto, e chegara ao paraíso.” – Pensou.

Uma figura de um belo ancião veio ao encontro dos dois, andando a pés. Os equinos pararam de imediato como em sinal de respeito.  Acácia desceu de sua montaria mais do que depressa e jogou-se aos pés daquela figura enigmática, como em um ritual de reconhecimento de soberania. Enzo desceu também e ficou parado ao lado do seu cavalo.

Aileen aproximou-se, o coração do rapaz quase saiu pela boca. Era um homem maduro, alto, esguio, cabelos curtos, fartos e brancos, olhos azuis, musculatura rígida, sorriso largo e acolhedor, moldurado por uma barba bem branca muito bem aparada. E como todos de sua raça era dono de uma beleza singular. Vestia uma bela roupa feita de algodão, uma espécie de túnica árabe que cobria todo seu corpo até a altura dos pés, era tão branca que refletia tons coloridos sob a luz do sol causando um efeito ainda mais enigmático sobre a figura daquele homem. 

- Acalme-se, esta entre amigos. Estávamos esperando por você filho de Muriel. Espero que tenha feito uma viagem tranquila e sem traumas!

Enzo manteve-se em silêncio. Não conseguia expressar uma palavra sequer diante daquela bela figura de homem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Época atual.

 

 

Agnus.

 

 

Desde que se tornou eterno, escolheu a solidão como companheira. Preferia habitar nos desertos, nas montanhas, nas florestas. Longe das cidades e das pessoas. Entre os da sua espécie era conhecido como ‘pássaro solitário’, por possuir grandes asas negras que lhe permitiam voar. Era extremamente alto e robusto, dono de um belo rosto moreno, emoldurado por uma longa cabeleira loira. Os olhos, de tons amarelados, lembravam as nobres aves de rapina. Usava uma armadura de ouro, por cima de uma curta túnica de linho azul, os pés eram calçados por sandálias espartanas. Do ombro até a altura dos calcanhares, caia uma bela capa de um tecido nobre e de tonalidade escura, que servia como camuflagem para as asas. Tinha hábitos noturnos. Sua alma se alimentava com o sangue de jovens guerreiros. Era um predador implacável e impiedoso.

Mesmo com o passar dos tempos, chegando aos dias atuais, não se livrara de sua figura medieval, gostava de causar impacto em suas presas, tornara-se uma lenda urbana temida.

Da Roma antiga ao Brasil moderno, vivenciou a evolução dos homens, presenciou civilizações intereiras desaparecerem, outras surgirem. Foi testemunha ocular dos fatos que mudaram a história da raça humana sobre a Terra. Caminhou por milênios em sua jornada solitária, passando por guerras, pragas, doenças, novas descobertas. Como todo eterno, carregava sobre os ombros o maldito destino de não experimentar a morte até que sua cabeça fosse decapitada por alguém.

Viveu à custa do sangue humano, dizimando suas vitimas, sem dar-lhes o direito de experimentar o dom que possuía. Desprezava até mesmo os de sua espécie, se tivesse o poder, mataria a todos também. Sua busca eterna era pela deusa serpente Lilith. Porém, nesse emaranhado de tempos e histórias, seus caminhos nunca se cruzaram. Tinha um desejo secreto de pedir-lhe o direito de morrer, para livrar-se daquela maldição para sempre. Mas só aceitaria a morte através das mãos da primeira maldita. Nunca permitiria que um humano ou um “guardião” tivesse esse poder sobre seu destino. Sua escolha pela vida solitária e seu rancor aparente, eram frutos de um amor perdido que ele perseguia com toda força do seu coração camuflado de gelo.

Um prédio antigo e abandonado no centro velho da cidade era seu covil, onde de dia mantinha-se oculto. A noite saía em sua caçada insaciável por sangue, pelas ruas do velho centro, suas principais vitimas eram os moradores de rua, os usuários de drogas e os profissionais do sexo, os que viviam a margem da sociedade. Aprendera com o tempo, que para manter-se vivo deveria causar vítimas que não despertassem muito a atenção. Há muito tempo deixara de fazer suas vitimas entre os nobres e os jovens soldados da sociedade, já tivera transtornos suficiente para desistir dessas presas. Mesmo por que, não estava mais no império romano e muito menos na idade antiga. E apesar dos humanos negarem a existência dos vampiros, tinham lá suas precauções, portanto, era melhor ser prudente.

A noite estava gelada, e uma fina garoa, típica do inverno paulistano, caia sobre a cidade. Um grupo de cinco homens, moradores de rua ocupavam um antigo sobrado abandonado próximo a Estação da Luz. Estavam ao redor de uma pequena fogueira improvisada, tentando amenizar o frio. Dividiam uma garrafa de cachaça, cigarros e algumas pedras de crack.

Lucas, um pouco mais afastado do grupo, dormia sobre um papelão, coberto até a cabeça, por um pano usado e de cor escura. Tinha por volta de dezesseis anos, era franzino e um pouco pequeno para a idade, mas possuía um rosto bonito. Fugira de casa muito cedo, por sofrer de violência doméstica por parte de seu padrasto alcoólatra e de sua mãe, covarde e permissiva. Aprendera ainda jovem a se virar nas ruas da capital paulista. Sonhava em um dia sair daquele inferno, por esse motivo não compartilhava com os demais o uso de drogas ou bebidas alcoólicas. Porém, de certa forma, sentia-se seguro ali. Era perigoso demais não ter aliados naquele universo de sobrevivência.

Os cincos conversavam sobre assunto nenhum, riam dominados pelo ópio.

Passos apressados denunciaram a presença de um estranho. Lucas acordou assustado e alerta, deixando para fora do “cobertor”, apenas os olhos grandes e castanhos.

Era um homem de aparência atlética, loiro, olhos de ave de rapina. Vestia uma roupa preta e um sobretudo da mesma cor, os pés, cobertos por um coturno estilo militar. Em um movimento rápido, abriu o sobretudo, jogando-o ao chão. Asas enormes e negras abriram-se. O garoto se cobriu com medo, encolhendo-se sobre o papelão, numa ingênua tentativa de se proteger. Seu corpo tremia incontrolavelmente. Ouviu apenas os gritos dos companheiros. Alguns minutos depois um silêncio aterrador dominou o lugar. Encolheu-se com mais violência, ficando em posição fetal. Um vento gelado dominou seu corpo. Sua pseudo proteção fora arrancada, estava descoberto. Abriu os olhos temerosos.

Agnus, com os caninos a mostra e a boca suja de sangue o encarava com um olhar macabro.

- Levante-se garoto. Você hoje foi escolhido para viver! Aproveite a chance por que nunca a dei para ninguém! – Soltou uma gargalhada cavernosa em seguida.

O adolescente estava petrificado no chão.

O vampiro o pegou pelos colarinhos e o colocou de pés, levantando o menino do chão. Os rostos ficaram na mesma altura. Lucas fechou os olhos.

- Abra esses malditos olhos e me encare, tenho aversão a covardes! – Os olhos do vampiro ficaram vermelhos.

O outro nada respondeu, apenas obedeceu. Diante dele estava uma lenda urbana que desde que viera morar nas ruas escutara histórias a respeito.

- O que acha que eu sou menino, um demônio? Não sou pior do que esse mundo infame em que você vive! – Olhava fixamente para o rapaz.

Puxou a presa para mais próximo de si e avançou seus dentes afiados sobre seu pescoço, sugando todo sangue com uma voracidade veloz, largando-o em seguida a seus pés.

Lucas não conseguia controlar o medo e precipitou-se a chorar. Um odor forte dominou suas narinas. Percebeu que havia urinado e evacuado nas calças.

O eterno o encarou pela ultima vez, abriu as asas e alçou voo, sumindo por entre os prédios, na escuridão da noite.

“ Te escolhi para viver eternamente meu caro, aproveite. Pois esse é um privilégio que nunca permiti para ninguém”. – O som ressoou do alto aos ouvidos do garoto.

A imagem que ele viu a seguir, fora pior do que a figura daquele demônio. Seus companheiros mortos. Os corpos separados das cabeças.  Não conseguiu segurar o vômito. O pesadelo insistia em continuar. Levantou-se cambaleante e saiu dali correndo, desaparecendo por entre a garoa, que nessa instante ficara mais grossa. Ensaiou mais alguns passos e desmaiou na sarjeta da rua.

 

 

Os Guardiões.

 

 

Quando a maldição de Lilith fugiu do controle, criando assim uma nova espécie sobre a Terra. “os eternos”, ou “vampiros”. Os Elohins designaram cinco anjos com o propósito de controlar o mal. Começam a caçada no Egito antigo, passando por todas as civilizações seguintes, atravessaram os séculos, percorreram cidades, tribos, vilarejos, até os confins do mundo. Mas já havia se perdido o controle a muito tempo. Cada ano que se passava o contingente de vampiros sobre a Terra, aumentava mais. Era uma tarefa árdua para os cinco guerreiros, mas deviam cumpri-la dia após dia. Com o passar dos séculos foi então necessário criar outros grupos de guardiões, dividindo assim cada grupo de cinco por região. Cada região era identificada por um código, fazendo um total de mil regiões monitoradas pelo mundo. Cada grupo possuía seu líder imediato, sendo esses, subordinados ao arcanjo superior Camael. Todos os grupos eram nomeados com as letras do alfabeto hebraico, seguido por uma ordem numérica. O ‘alfa’ do alfabeto grego, era usado para codificar as áreas monitoradas por esses grupos.

Rafael era o líder do grupo, que era denominado de Gimel. Cuidavam da região ‘alfa 2’, que compreendia toda metrópole de São Paulo, o grupo era composto por Aziel, Becker, Amon e Baruck. Nos tempos antigos, vestiam túnicas e turbantes negros, montavam em cavalos brancos. Atualmente, trajavam sobretudos pretos, camisetas brancas, calças jeans e coturnos. Transitavam montados em Harley Davidsons, vivendo como andarilhos pelas estradas, ruas e avenidas da cidade. Como os vampiros, tinham que manter suas identidades em segredo absoluto, para não levantarem suspeitas.

Era por volta da meia noite, quando pararam em um posto de gasolina para abastecer. Desligaram o veículo e desceram em silêncio. O frentista, um homem de idade mediana e de porte físico forte, ficou admirando “as máquinas”, enquanto as enchia com o combustível. Pagaram a conta e saíram em disparada pela Avenida Paulista. Descobriram um covil próximo da região. Uma mansão abandonada, onde naquele exato momento estava acontecendo uma festa. Uma reunião de eternos, regada a sangue e orgia.

Chegaram sorrateiros e em silêncio, para não chamarem a atenção antes do tempo. Precisavam ser cautelosos, estava cada vez mais complicado cumprir seus objetivos. Os vampiros viviam em estado de alerta e alguns eram exímios lutadores, brigavam ardorosamente até o ultimo momento.

Pararam as motos e desceram. O portão principal estava bloqueado por um grosso cadeado. Rafael o quebrou como quem rasga um pedaço de papel. Outros dois se incumbiram de abrir os portões e entraram. Arquitetaram um plano rápido de invasão.

Do lado de dentro do imóvel, um grupo de mais ou menos uns quinze vampiros, assistiam um espetáculo de dança do ventre.

Loster,  estava sentado em uma poltrona velha, ficou em pés e aspirou o ar e sentiu um cheiro de morte eminente. Era alto, pele branca, robusto, rosto quadrado, barba por fazer, cabelos raspados a navalha, olhos esverdeados. Estava semi nu, deixando boa parte do corpo peludo a mostra.

- Silêncio. – Gritou, chamando a atenção dos demais. – Os malditos anjos estão por perto, fomos descobertos. – Vestiu as roupas de cor vinho escuro as pressas.

Os outros ficaram parados. Um silêncio sinistro invadiu o lugar. A dançarina conteve-se a um canto qualquer do lugar.

- Se vamos morrer, então vamos lutar contra esses cães até a morte. – Disse.

Todos ficaram em sinal de alerta.

Marjova, uma vampira negra e bela, se colocou a seu lado segurando em sua mão esquerda.

- Se chegou a nossa hora, vamos ir juntos para o inferno! – Falou particularmente em seu ouvido.

Loster apertou a sua mão em sinal de concordância.

Rafael e seus comparsas, invadiram o local com precisão militar. Aniquilando quase que de imediato o grupo ali presente, possuíam milênios de experiência naquelas empreitadas.

Antonio, um vampiro magro e alto, pulou na frente de Loster e de Marjova, na intenção de protegê-los.

- Fuja homem, proteja sua mulher e o filho que ela espera de você. Deixa que dou cabo desses covardes.

Os outros dois ficaram relutantes.

- Fujam enquanto podem. Isso é uma ordem. – Era o líder do grupo, não podia ser contrariado coforme o código de ética do clã.

Loster e Marjova precipitaram-se por uma das muitas janelas existentes, Baruck os seguiu em disparada. Antonio por sua vez entrou em briga armada contra Rafael. Sentiu a espada do arcanjo penetrar em suas entranhas. Encarou o algoz com ódio no olhar, cuspindo saliva e sangue em seu rosto.

- Diga para seus superiores que eles fracassaram... Nós agora aprendemos a nos procriar...

A cabeça do vampiro foi parar em um canto distante do corpo.

O casal subiu em uma das motos e saíram acelerados na escuridão da noite. Baruck os seguiu em outra moto. A ordem era não deixar nenhum maldito vivo.

Em poucos minutos estavam na Avenida Brasil, por ser de madrugada o trânsito estava livre, corriam com toda capacidade de potência do veículo, seguidos por Baruck. Desceram a Rebouças em sentido a Francisco Morato em alguns minutos estavam na Regis Bitencourt. O arcanjo ainda estava no jogo de gato e rato.

Na mansão os outros quatro guardiões, cumpriram a missão dando cabo de todos os eternos ali presentes.

Loster perdeu o controle da moto e caíram em um barranco na encosta da rodovia. Salvo alguns pequenos arranhões, estavam intactos. O vampiro abraçou a mulher em sinal de carinho e cuidado.

- Está tudo bem. – Perguntou afagando sua barriga. – E o bebê.

- Estou ótima, ele é um guerreiro desde já. E você?

- Acho que sim. Pelo menos aparentemente está tudo no lugar. – Soltou um sorrisinho sem graça. – Não vamos morrer dessa vez.

O barulho da outra moto parando, queria dizer que o maldito arcanjo havia chegado.

Marjova abraçou seu homem com mais força.

- Acalme-se, ele não vai tocar em vocês.

Baruck desceu lentamente do seu veiculo. A alguns metros a frente, o casal de vampiros estava abraçado. Sacou a espada e foi em direção aos dois.

- Venha logo covarde, acabe logo com isso. Não temos medo de morrer. – Gruniu a mulher, com os olhos vermelhos e os caninos saltados para fora.

- Não pense você que não vai ganhar alguns arranhões nessa sua linda cara. Seu alado filho da puta. – Falou o homem.

- Chega, malditos! Fim da linha para vocês dois...

Uma forte luz branca invadiu o espaço entre os vampiros e o arcanjo.

“Era só o que me faltava. “ – Pensou Baruck.

- O que esta fazendo aqui, Ben-Shakar. Isso não lhe diz respeito.

- Tudo o que acontece nesse planeta me diz respeito. Não foi essa a herança que os Elohins me deram. Esse planeta maldito é meu! – Desdenhou.

- Não estou com disposição para suas gracinhas hoje.

- É muito fácil aniquilar um vampiro, não é! Basta apenas um golpe de espada no pescoço e pronto. Serviço feito... Por que não luta com um arcanjo guerreiro como você. Vamos lembrar nossas antigas batalhas, eram muito mais emocionantes, não acha.

- Chega! Não sei por que Eles ainda não acabaram com a sua raça.

- Por que você sabe tanto quanto eu que Eles curtem essa palhaçada. Precisam de mim para colocar um pouco de emoção na vida eterna e sem graça Deles.

Olhou para os dois que estavam atrás de si.

- Podem ir embora, esse anjinho, não vai encostar um dedo em vocês. – Soltou um sorrisinho cínico. - Não é meu anjo? - Riu debochado.

Baruck se encheu de fúria e se precipitou sobre Ben-Shakar.

- Ótimo, assim que eu queria, uma luta como nos velhos tempos.

As espadas se chocavam com violência, relâmpagos saiam com seus atritos.

- Você quase se bandiou para o meu lado lembra-se? – Perguntou em tom provocativoe em posição de guarda.

- Eu me arrependi a tempo, maldito. – Gritou o outro com ódio.

- Um covarde como sempre, renegado duas vezes, capacho das divindades. E agora se presta ao papel de assassino de vampiros. No que nós somos diferentes meu irmão. – Falou ironicamente.

- Não sou seu irmão. – Retrucou o anjo.

- Somos irmãos sim, você querendo ou não, fomos gerados da mesma energia.

- Maldita hora em que eu cai em suas artimanhas.

 Ben-Shakar o encarou nos olhos, com um golpe certeiro desarmou Baruck, fazendo sua espada voar longe.

- E agora meu doce e jovem anjo. Vai correr como um cão covarde, ou vai morrer como um herói. Por que caso você não se lembre, eu tenho o poder de acabar com a sua vida. Sou um arcanjo de primeira linhagem. Mas, sei também reconhecer um bom guerreiro. E afinal de contas também já matei as saudades dos velhos tempos. Agora vá e pega sua maldita espada e suma daqui.

Falando isso soltou uma gargalhada de deboche e desapareceu.

Baruck estava enfurecido, aquele párea sabia como mexer com seu ego. Tocava na ferida certa. Pegou a espada do chão e a colocou na bainha. Olhou ao redor, sua moto não estava mais no local onde a deixara, e a outra sem condições de uso imediato. Havia perdido, pelo menos por hora.

Os vampiros conseguiram escapar.

 

 

 

 

Lilith

 

 

As fortes dores musculares, a queda de temperatura corpórea e as escamas douradas nascendo por todo o corpo, indicavam o inicio da transmutação. Estava indisposta, deitada em uma cama confortável. Apenas aguardando a hora de mais uma vez cumprir por um tempo sua maldição. Nunca se acostumaria com aquilo, era doloroso demais, sofrido demais. Nesses momentos amaldiçoava sua existência eterna, desejava a morte. Mas, infelizmente sabia que estaria presa para sempre naquele circulo.  Ninguém, nenhuma divindade, nenhum anjo, nenhum humano ou nem mesmo Ben-Shakar, poderia tira-la daquela sina.

Jade entrou em silêncio, para não incomoda-la mais do que já estava, sentou-se ao lado da cama em uma poltrona e ficou quieta. Também não gostava de ver sua deusa naquela situação infame, gostaria de fazer alguma coisa que amenizasse, mas não estava ao seu alcance.

Um último gemido saiu dos lábios da mulher e em alguns minutos depois, a metamorfose estava completa. Uma bela serpente albina desceu da cama em um ritmo sinuoso. Jade, com um cuidado extremo a pegou em seus braços e a acomodou carinhosamente em um cesto grande de vime, deixando-a ali e saindo dos aposentos. Teria mais um longo ano pela frente como uma espécie rastejante.

Moravam atualmente no Jardim América, bairro de classe alta de São Paulo. Era o lugar ideal para manterem seus segredos enterrados. A mansão suntuosa era como um forte onde se protegiam do mundo externo. Jade liderava o pequeno e seleto grupo de serviçais da casa. Vampiros escolhidos entre tantos outros, que demonstravam extrema fidelidade a Saredh e a Lilith.

Depois de terem vivenciado tantas situações insólitas e de grande perigo, aprenderam que o anonimato era a forma mais segura de sobreviverem entre os humanos. Chegaram ao Brasil por volta do século dezesseis, após muitos problemas no velho mundo. Na época, o pais ainda novo, não tinha ainda um contingente grande de semelhantes. Apenas pequenos grupos isolados, com isso, seria o lugar ideal para mais uma vez, recomeçarem uma vida nova. O tempo passou e conseguiram manter suas identidades no mais absoluto segredo até os dias atuais. Para a alta sociedade, eram apenas milionários excêntricos e reservados, já que não eram acostumados a dar ou frequentar festas ou a sair em fotografias nas colunas sociais.

A noite chegou silenciosa sobre a mansão. Um ronco de motor cortou o silencio por alguns minutos. Parou de repente.

Saredh, que estava na biblioteca, lendo um livro sobre civilizações antigas. Interrompeu a leitura e dirigiu-se até a janela. Mesmo na intimidade da casa gostava de vestir-se de uma maneira sóbria, usava uma camiseta estilo polo azul clara, uma bermuda de sarja cinza e sandálias de couro pretas nos pés.  Olhou para fora, mas de onde se encontrava não conseguia ter uma visão ampla da parte externa da casa, apenas enxergou o jardim de azaleias brancas. Percebeu um movimento ansioso por parte de um dos seguranças. Jade, que usava um uniforme azul marinho fazendo sua figura parecer uma comissária de bordo, conversava com o homem. Mas ele não conseguia escutar daquela distância, o que falavam. Largou o livro sobre a mesa e saiu.

- Temos visitas! – Disse a mulher, aproximando-se dele.

- Visitas? – Respondeu com outra pergunta. – Olhou para o segurança. – De quem se trata?

- Não se aflija senhor. São eternos como nós. Vieram procurar proteção. – Respondeu o brutamonte que vestia um elegante uniforme preto.

- Diga para que venham falar comigo então, não podemos negar ajuda aos de nossa linhagem.

Os portões da mansão se abriram. O casal entrou lentamente com a moto, pararam e desceram. Fizeram o resto do percurso andando, acompanhados por outro segurança, até chegarem onde estavam os outros. Outro serviçal encarregou-se do veículo.

- Desculpem-nos o transtorno a essa hora da noite Senhor, mas precisamos muito de seu auxilio. – Falou Loster.

Saredh estendeu a mão em um gesto acolhedor. Jade observava o casal em silêncio.

- Sou Loster e essa é minha mulher, Marjova. Fomos perseguidos pelos guardiões... Mas conseguimos escapar... Ela está grávida... Viemos por indicação de Antonio, nosso líder!

- Entrem devem estar cansados. – Disse Saredh cordialmente. – Conversaremos com mais segurança do lado de dentro da casa. – Essa é Jade!

 Feita as devidas apresentações entraram na mansão. Saredh fechou a porta atrás de si.

- Leve-os para um dos quartos de hóspedes. – Falou para Jade. – Depois que estiverem descnçados, conversaremos.

Ela acompanhou o casal até os aposentos.

 

 

Lucas

 

 

Acordou assustado e com febre alta, estava em um pequeno quarto, deitado em uma cama confortável. Um homem alto e calvo, próximo dos sessenta anos entrou com uma bandeja de alimentos a mão. Vestia uma túnica de cor marrom e calçava sandálias de pescador, os olhos azuis encararam o garoto com um ar acolhedor. Era um monge.

- Fique em paz, está entre amigos. Meu nome e Angelo!  – Disse o homem com uma voz suave.

- Onde estou. – Perguntou o garoto apreensivo, sentando-se na cama.

- Em um mosteiro. Encontramos você caído em nossa calçada e o trouxemos para dentro. Está sob a nossa proteção.

- Aquele monstro... Ele não me matou.

- Não, mas falaremos disso em outra ocasião, está bem? Agora coma e descanse sua mente. Precisa repor suas energias. – Depositou a bandeja em uma pequena mesa próxima a cabeceira da cama.  - Coma, precisa se alimentar. – Disse isso e saiu, deixando o menino sozinho no quarto novamente.

Lucas sentou-se na beirada da cama e devorou a comida em poucos segundos.

Sentiu um mal estar repentino, levou a mão ao pescoço que ardia feito brasa. Voltou a deitar-se.

“O que aquele demônio maldito fizera com ele”. – Lembrou-se da figura infame de Agnus mordendo sua jugular. Um arrepio tomou conta do seu corpo. Cobriu-se com o lençol fino de algodão e voltou a adormecer.

Estava em um lugar escuro e ouvia gritos distantes. Uma voz grave o chamou pelo nome, mas naquela escuridão não conseguia definir de onde ela vinha. Sentiu uma sensação estranha como que milhares de olhos o observassem. O coração batia forte e o único som que ele escutava era o de sua própria respiração. Mãos fortes o agarraram pelos ombros e olhos vermelhos se destacaram na penumbra. Soltou um grito de pânico. Acordou molhado de suor, estava novamente dentro do pequeno quarto do mosteiro. Tivera apenas um pesadelo rápido.

Resolveu levantar-se, se tentasse dormir outra vez voltaria a ter sonhos ruins. Dirigiu-se até a porta e a abriu lentamente, olhou curioso para fora. Viu apenas um enorme corredor vazio.

“Como viera parar ali.” – Pensou.

Fechou a porta atrás de si e começou a andar de um lado para o outro dentro do pequeno cômodo.  Um sino tocou quebrando o silêncio em que se encontrava, misturado ao som do sino um canto angelical produzido por vozes masculinas chegaram aos seus ouvidos. Sentiu uma paz acolhedora. Ajoelhou-se a beira da cama e chorando balbuciou algumas palavras como quem não sabe rezar e tenta.

Angelo entrou novamente em seu quarto. Esperou que Lucas saísse de sua meditação e disse:

- Venha meu jovem, precisamos conversar.

O garoto o seguiu sem dizer uma palavra. Passaram pelo corredor e entraram na biblioteca do prédio. Durante o trajeto observava a figura daquele homem que a seu ver transmitia a imagem de uma pessoa frágil e ao mesmo tempo parecia com aqueles heróis das histórias em quadrinhos, que costumava ler em revistas velhas encontradas no lixos das ruas.

 

 

Loster e Marjova.

 

 

Estavam no escritório da mansão, Saredh em pé observava o casal a sua frente.

Marjova era uma mulher negra linda, no apogeu de sua gravidez parecia ainda mais bela e soberana. Desde Lilith, nenhuma outra vampira conseguira gerar um filho. Mesmo por que neste ultimo caso a criança que estava sendo gerada naquele ventre, era entre semelhantes, seria uma evolução da espécie, por esse motivo deviam ser protegidos.

- Quando Antonio soube do estado de minha mulher, fez de tudo para proteger a nós e a criança. Era o líder de nosso clã e nosso mentor. Pagou com a própria vida, quando os guardiões invadiram nosso esconderijo. Mas a uma semana atrás mais ou menos, como quem estivesse prevendo algo ruim, me falou em particular, para que procurasse pelo mestre Saredh, que só com ele estaríamos realmente protegidos. Perguntei de quem se tratava e ele me contou que era o escudeiro e fiel amigo da ‘deusa’ e um grande amigo de tempos passados a quem tinha pedido refúgio em uma época difícil. Nunca ouvira falar da ‘deusa’ como uma pessoa real em toda minha existência, sempre imaginei que se tratava de uma lenda distante. Mas ele me afirmou que vocês eram reais, e me disse que deveria procura-los em caso de extrema urgência. Disse que teve alguns contatos com o mestre. Poucos por sinal, porém agradáveis e necessários. Por esse motivo estamos aqui...

- É lamentável que um eterno sábio como Antonio, tenha morrido nas mãos daqueles pulhas malditos.  – Respondeu Saredh com um tom de lamento.

Loster e a mulher assentiram com a cabeça.

- Muito bem, vamos aos fatos então. Quero saber se existe uma muito remota hipótese de vocês terem sido seguidos pelos guardiões.

- Não senhor. Fomos ajudados por um querubim debochado. – Falou Loster.

- Ben-Shakar. – Respondeu Saredh.

- Quem? – Perguntou o homem admirado.

- Isso mesmo que você ouviu. Ben-Shakar, ele adora se divertir nessas situações para provocar a fúria de seus semelhantes.

- Estou vendo que sei muito pouco sobre o nosso universo.

- Acalme-se, a eternidade nos espera com toda sua paciência. Muito bem, ficarão aqui até a criança nascer. Depois veremos o que fazer. Vou comunicar o Dr. Vander, médico eterno de nossa inteira confiança, para avaliar melhor a situação dos dois, afinal eles sofreram um trauma. Vou providenciar isso imediatamente.

- Não sei como agradecer, mestre.

- Não há necessidade de agradecimentos, apenas use com respeito nossa hospitalidade. A casa é de vocês. Há sim, tenho algo muito importante para falar. Não nos alimentamos de sangue humano dentro dessa casa, desde muito tempo, nos acostumamos com sangue de origem animal. Eu já era adepto desta prática desde sempre. Porém todos aqui entraram em um acordo para nossa própria proteção.  Quem desobedecer essa regra sai do nosso convívio. Desculpem falar desse jeito, mas não existe uma forma delicada de expor esse assunto. Se quiserem caçar sangue humano, que isso seja feito de maneira sutil e longe dos arredores da mansão, não esquecendo uma regra básica, decapitar a vitima antes que o processo de vampirismo comece.

- Tudo bem, tudo pela nossa sobrevivência. – Disse a mulher.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo Dois.

 

 

As tochas clareavam muito pouco a escuridão da densa floresta, estavam mais uma vez sendo caçados, dessa vez como bruxos excomungados pela poderosa Igreja Católica Apostólica Romana, que a séculos, tornara-se a religião oficial do Império. Desde a conversão do Imperador Constantino.

 Corriam com segurança por entre as árvores, por ser um ambiente que conheciam e dominavam muito bem.

Lilith usava um belo vestido vermelho longo, bordado com linhas douradas, a cabeça coberta por um capuz branco proveniente de uma roupa que ficava por baixo do vestido, cobrindo sua cabeleira ruiva. Jade também usava um vestido verde típico da época, ornamentado com rendas brancas a altura da gola e dos punhos, os cabelos presos por uma trança. Saredh por sua vez trajava uma túnica de tamanho médio até a altura dos joelhos em tom mostarda, uma capa marrom escura e uma calça branca como se fosse uma segunda pele.  

Com os algozes, que trajavam capuzes e capas pretas que cobriam o corpo até a altura dos pés, cães farejadores e famintos ladravam sem parar. O líder do grupo era Calebe, homem influente na cúpula religiosa da pequena cidade.

 Subiram na copa da árvore mais alta e observaram com desprezo aquela corja de infames passar adiante. Os olhos de Lilith queimavam como fogo, em uma mistura de sede e ódio.

- Estou cansada de ser caçada como uma maldita!

- Acalme-se, já saímos de situações piores. – Disse Saredh.

- Vamos ficar aqui até amanhecer o dia. Eles não irão nos encontrar. – Jade falou por sua vez.

- Estou cheia, além de ter que rastejar por um ano em forma de serpente, agora tenho que aprender a me comportar como uma macaca. – Esbravejou Lilith!

Era a Idade Média e a caça as bruxas, borbulhava por todo Império Romano Cristão. Nesse tempo muito dos eternos foram decapitados e levados a fogueira da inquisição. Com a ajuda dos Guardiões da Luz grupos inteiros de vampiros foram dizimados e quase se tornaram extintos. Os que sobreviveram ao massacre foram viver em sociedades secretas distantes das garras do Império.

Começaram então a desenvolver uma nova extratégia para sua sobrevivência. Inventar lendas sobre eles próprios, tornando-se assim com o passar dos tempos, seres folclóricos que tinham medo da luz do dia, de alho, da cruz, que viravam morcegos, dormiam em caixões, não refletiam a imagem no espelho, entre tantas outras crendices idiotas que espalharam entre a população. Conseguiram um êxito tão grande, que qualquer pessoa que sequer citasse alguma palavra sobre “seres sugadores de sangue”, era taxada como lunático entre os demais. Tornaram-se apenas lendas de camponeses incultos. Nessa mesma época, formou-se uma sociedade secreta chamada de os ‘ocultos’, foi criada também com o propósito de proteger a todos de sua espécie, divulgavam histórias que faziam a existência dos ‘eternos’ cair em descréditos entre os humanos. Também julgavam e condenavam vampiros que colocassem em risco o anonimato de todos. Com o passar dos tempos essa sociedade também caiu em descrédito, tornando-se apenas uma lenda a mais.

O dia amanheceu com um belo Sol convidando a vida. Os cavalos haviam sido mortos pelos algozes noturnos, teriam que percorrer todo caminho a pés até a próxima cidade ou vilarejo. Mas como não queriam chamar a atenção para si resolveram permanecer na floresta por alguns dias. Encontraram uma velha choupana abandonada, em péssimo estado. Mas por certo não seria seguro ficar ali. Desceram pela margem do rio e logo a frente, encontraram uma caverna escondida entre pequenas árvores. Permaneceram ali por algumas semanas.

Passado a euforia da caçada, entraram em um pequeno vilarejo como muito dos andarilhos da época, sem despertar a atenção de ninguém.

Encontraram um pequeno grupo de eternos que lhes deram abrigo temporário. O líder era Janus, um homem robusto e de sorriso largo e acolhedor. Um outro homem, duas mulheres e um adolescente de uns dezoito anos, completavam o clã. Viviam como uma família comum, sem despertar atenção dos demais.

”A fraternidade entre os eternos era a única forma de manterem-se vivos e fortalecidos”. – Era assim que pensava Janus e os seus. Por esse motivo, sua casa sempre servia de abrigo para os apurados de sua espécie. Só nunca imaginou em toda sua existência hospedar  a ‘deusa’ e seus fiéis companheiros.

 

 

 

 

Os cavalos estavam particularmente agitados naquela noite. A lua enorme e alaranjada encontrava-se no centro do céu. Calebe desceu até o celeiro para averiguar pessoalmente o que estava acontecendo, de tudo o que possuía na fazenda nutria uma paixão particular pelos equinos.

A tocha que carregava na mão direita, apagou-se com o vento, assim que aproximou-se da porta principal onde estavam os animais. Sentiu um calafrio estranho que dominou sua coluna vertebral. Foi surpreendido com a figura de uma bela mulher que surgiu do nada em sua frente.

- Esperei pacientemente um mês, por esse dia, Calebe. Estava em seu encalço, aguardando uma boa oportunidade. E, finalmente... Enfim sós... – Soltou uma gargalhada de deboche.

O medo deixou o homem petrificado, sem reação. O sangue lhe fugiu do corpo e ele ficou branco feito papel. Tentou soltar um grito mas, lhe faltou a voz.

- Achou que eu ia deixar passar aquela noite que fui obrigada a ficar suspensa em uma árvore, fugindo de você, de seus capangas e de seus cães malditos! Vim retribuir a gentileza, meu caro! Um dia da caça...

- O que faz aqui em minhas propriedades, maldita filha do demônio! – Gritou o homem com o pouco de ar que conseguiu reunir nos pulmões.

- Não gaste sua energia gritando comigo, vai precisar economizar ela para suas últimas horas de vida como humano.

O homem tentou esboçar alguma reação precipitando-se contra Lilith. Mas, ela por sua vez, com apenas um golpe o jogou no chão. Como todos os da sua espécie, possuía a força de um leão.

Um tremor incontrolável dominou o corpo de Calebe.

Os olhos da vampira, ficaram da cor de sangue e os caninos superiores se precipitaram para fora. Ela jogou-se sobre a vítima que estava caída no chão, sem dar-lhe chance de defesa. Primeiro, vazou o olho direito do homem com uma de suas unhas, depois mordeu seu pescoço tirando cada gota de sangue do seu corpo. Uma sensação de êxtase invadiu sua alma. Levantou-se.

O infeliz se contorcia no chão com uma mistura de medo, dor e raiva.

- Há muito tempo não dou o direito da vida eterna a ninguém! – Disse, limpando os últimos vestígios de sangue da boca com a manga do vestido. – Mas para você, será um castigo merecido, quero ver o que seu ‘padreco’ vai dizer quando descobrir que você se tornou um demônio. Como seus comparsas e lacaios vão se comportar quando se tornar um ser desprezível e sugador de sangue como eu. Vai ter que viver para sempre as escondidas, fugindo de tudo e de todos.  Já imaginou?  – Não pode conter uma gargalhada sarcástica.

- Maldita... – Gritou, enquanto estremecia feito um epilético, acabe logo com isso, me mate de uma vez por todas. Não quero me transformar em um demônio. Maldita...

Lilith desapareceu na escuridão da noite. O vestido e a capa negra que usava, serviram como camuflagem.

 

 

 

 

Enzo acordou pela manhã com uma sensação estranha na alma, tivera sonhos ruins e sem nexo durante toda noite. Foi despertado com um tipo de toque de trombeta que anunciava a alvorada.

 Aquele lugar sabia que de alguma forma não era o seu verdadeiro universo, mas não tinha respostas para o que estava fazendo ali. Às vezes via imagens sombreadas que não traziam nenhum tipo de luz a sua mente. Estava preso. Ou pelo menos era assim como se sentia.

Já havia se passado uma semana desde que fora trazido por Acácia e recebido por Aileen. Mas, a única resposta que tinha. Era que deveria acalmar-se e buscar dentro de si mesmo a solução para suas dúvidas. Que não eram poucas.

A porta de seus aposentos se abriu, deixando entrar um pouco da luz do sol. Era Grummer, um jovem elfo que ficara incumbido de dar-lhe a assistência necessária durante aqueles primeiros difíceis dias. Enzo estava sentado à beira da cama.

- O sol nos chama para um novo dia! - Disse o elfo. - Não vai sair do teu quarto hoje?

"Gostaria de sair desse pesadelo". - Pensou. - Não respondeu nada.

- Sei que teu coração está aflito, mas tenha paciência. Você saberá por si só tudo o que deseja. - Dizendo isso entrou no quarto e cerrou a porta atrás de si.

- É a única coisa que eu quero! Essa sensação de estar participando de um filme de fantasia não me agrada! – Disse ríspido.

- Como? Um o quê?

- Deixa pra lá, seria difícil demais de você entender! – Soltou um sorriso sem graça.

- Como passou a noite? - Sentou-se na cama ao lado de Enzo.

- Tive os mesmos sonhos de sempre, mas como de hábito não me lembro de nada quando acordo.

- Entendo!

- Até quando vou ficar com essa angústia, com essa sensação, porque vocês não me dizem logo a verdade. Podem dizer que eu morri, nunca tive medo da morte mesmo!

- Mas quem disse que você está morto?

- Então o que é isso, esse lugar? Que me desculpe te dizer, para mim é muito estranho. Sei que não faço parte disso, que não pertenço a esse mundo...

- Você está totalmente enganado, Enzo. Você faz parte desse mundo, como diz, tanto quanto eu e os demais.

- Não me diga. - Respondeu irritado. - Olhe para mim, sou muito diferente de você e dos seus. Minhas roupas, meu jeito de falar, minha etinia...

- Somos todos filhos da mesma energia.

- Não é hora para filosofias baratas, meu caro. Quero respostas concretas.

- Você está passando por uma fase de transição...

- Chega! - Colocou-se de pés, nervoso. - Saia do meu quarto agora, e só retorne aqui quando puder me dizer alguma coisa coerente. Estou cansado dessa linguagem figurada de vocês. Vamos levante-se e saia daqui, antes que eu encha seu traseiro de pontapés.

O elfo retirou-se do quarto com um olhar tão sereno que deixou Enzo mais irritado do já estava.

- Malditos.

Empurrou a porta do quarto com força fazendo um grande barulho. Sentou-se outra vez à beira da cama. Sua cabeça foi tomada por uma dor insuportável. Levou as duas mãos sobre ela e deitou-se outra vez. Adormeceu profundamente.

Estava em uma estrada, a noite escura era iluminada apenas pela luz da lua cheia. À sua frente, um forte clarão dominou sua visão, ouviu rangido de pneus e em seguida uma colisão forte.

Acordou assustado dentro do seu quarto. Um lampejo de lembrança dominou sua mente.

"Sofrera um acidente de carro e estava morto". - Pensou. - "Foi isso..."

Só não conseguia entender porque aqueles seres estranhos insistiam em dizer que não havia morrido.

 

 

 

 

O corpo de Lucas sofrera mudanças consideráveis, de menino franzino, em menos de quinze dias, tornara-se um jovem robusto e musculoso, da mesma forma, sua alma também sofreu algumas mudanças. Tentou de todas as formas possíveis controlar sua fúria de vampiro, mas tudo foi em vão, uma sede incontrolável de sangue dominava suas entranhas. Ele não resistiu a abstinência. Nunca em toda sua vida de morador de rua havia experimentado qualquer tipo de droga ou ópio, mas seus instintos dominaram por completo sua mente. Não haveria como continuar ali, no mosteiro. Era uma ameaça para aqueles que o tinham acolhido.

O monge Ângelo, com toda sua experiência e paciência não coseguiu aplacar a fúria sanguinária de seu pupilo. Lucas teve que ir embora, iria enfrentar as ruas outra vez. Mas agora, não seria uma criatura indefesa e medrosa. Iria lutar pela sobrevivência com outra perspectiva de existência.

O relógio marcava meio dia, o calor estava forte, daqueles abafados que fazem o verão de São Paulo ficar insuportável. Deu um abraço apertado no monge, e sussurrou algumas frases de agradecimento, pelos cuidados daqueles dias passados.

Angelo não conteve as lágrimas.

- Tome cuidado. - Disse esquivando-se do rapaz e fitando-lhe os olhos. - O mundo aí fora não é fácil para ninguém, principalmente para os de sua espécie. O homem é traiçoeiro... Se precisar, estaremos todos aqui...

- Eu sei! Obrigado por tentar me ajudar, ou por ter me ajudado nessa fase tão difícil de minha vida! Homens como vocês é que deveriam viver eternamente!

- Depois da morte, existe a eternidade, meu rapaz! de uma forma ou de outra somos todos eternos. Agora vá, não perca mais seu tempo!

- Mais uma vez, obrigado. - O último abraço foi longo e silencioso.

Lucas deu alguns passos pela rua, a certa distância, olhou para trás. A porta do mosteiro fechou às suas costas. Vestia uma calça jeans de lavagem escura, uma camiseta branca básica, um boné roxo e de aba aberta, nos pés calçava um tênis estilo all star de cor preta.

As pessoas andavam apressadas, sem tempo. Ocupadas apenas com seu pequeno universo egoísta. Muitos usavam fones de ouvido, digitavam mensagens em seus smartphones e similares. Lucas se misturou a multidão e foi absorvido pela massa.

Do alto de um prédio próximo, Agnus observava sua cria. Aspirou o ar com força e sentiu o odor do garoto para quem dera o direito de viver eternamente. Sua única presa a quem concedera a maldição dos eternos. Seu filho.

O rapaz desceu as escadarias do metrô, na Praça da Sé e saiu do campo de visão do alado.

"Breve nos encontraremos, meu caro". - Sussurrou Agnus.

O metrô como de costume estava cheio. Pegou a linha azul, com destino a estação Jabaquara. As pessoas pareciam tomadas por um êxtase generalizado, cada um concentrado em seu próprio umbigo. Outros conversavam animados e os sons das vozes se misturavam, formando um barulho inaudível. O vampiro encostou-se na porta e ficou apenas observando.

Pensou. - "Como o ser humano é esquisito".

O sinal sonoro anunciou a estação, Vila Mariana. Desceu em meio as outras pessoas. Tinha um destino certo, depois de muitos anos distante, iria acertar as contas com  alguém.

Foi em direção a Avenida Lins de Vasconcelos, com passos lentos, seguiu seu destino. Não tinha pressa. Afinal de contas, agora, tinha a eternidade a seu favor.

 

 

 

 

O escritório na Avenida Paulista era suntuoso, com móveis modernos e arrojados. Ficava na cobertura, possuia uma janela ampla e panorâmica, de onde ele costumava ficar observando as pessoas lá embaixo, a quem olhava com ar de superioridade e desdém. Tinha por volta de seus cinquenta anos, olhos castanhos, cabelo raspado a navalha, alto, corpo robusto. Usava roupas bem cortadas e de griffes importadas tais como seus acessórios (sapatos, cintos, carteiras...). No olho direito um tapa-olho preto oferecia a sua personalidade algum tipo de charme.  Chamava-se Calebe, empresário bem sucedido e influente na área da publicidade. Tinha verdadeiro asco pelos seres inferiores "os humanos", como costumava chama-los às escondidas, a quem tolerava apenas para fazer negócios lucrativos. Pelos seus semelhantes, os eternos, cultivava um ódio tão grande quanto sua sede de sangue. Mas o pior sentimento que sua alma cultivava concentrava-se, "naquela maldita cadela", que o transformara naquele ser asqueroso.

Lilith, a vadia que sugara toda sua humanidade, sua alma. Transformando sua vida em um verdeiro inferno. Tivera que fugir, se esconder, mentir durante décadas e séculos. Muitas vezes desejou a morte, mas ela nunca iria atendê-lo. Estava marcado para viver eternamente. Como amaldiçoou aquela noite em que colocou os seus cães para caçarem os demônios, em nome de uma fé hipócrita e tendenciosa.

O interfone tocou, tirando ele de seus pensamentos. Dirigiu-se até a mesa e atendeu.

- Sr. Calebe, o Sr. Baruck o espera aqui na recepção. - Disse a voz da secretária pelo interfone.

- Mande-o entrar, a partir de agora, estou em uma reunião importante. Hoje não atendo mais ninguém, fui claro?

- Sim senhor. – Respondeu a voz.

Pegou um controle remoto com a mão direita e apertou um botão, à sua frente, a porta de vidro escuro que separava sua sala do saguão principal se abriu.

Baruck entrou com o olhar penetrante de sempre. Trajava-se como um grande executivo, com um terno azul marinho gravata vermelha e camisa rosa, um imponente sapato de couro de jacaré azul marinho calçavam seus pés. Na mão direita carregava uma pasta de couro preta, daquelas que têm segredos para abrir.

- A que devo a honra?! - Perguntou indicando com a mão direita um lugar para o visitante sentar-se.

Baruck sentou-se em uma confortável poltrona de couro preta. Calebe em seguida fez o mesmo, deixando que sua mesa os separasse. Deveria manter uma distância estratégica do outro.  Afinal era um maldito ‘guardião’.

- Você sabe muito bem que quebro todas as minhas regras vindo até você, não sabe? Que os outros guardiões não podem nem imaginar que temos contato.

O outro assentiu com a cabeça, com um sorrisinho cínico nos lábios.

- Portanto vou direto ao assunto...

 

 

 

 

Chegou na velha pensão onde passara quase toda sua infância. O portão velho e enferrujado que dava acesso ao corredor principal, como de costume, estava aberto. Entrou por ele e o fechou atrás de si.

O corredor estava vazio.

"Melhor assim". - Pensou.

O número do pequeno quarto que morara, era o trinta e cinco. Parou diante da porta e prendeu a respiração. Lembranças ruins lhe vieram a mente.

Bateu na porta com a mão cerrada. Minutos depois, que pareceram horas. Uma mulher esguia e de semblante sofrido, entreabriu a porta. Era sua mãe. Estava mais magra do que quando fugira dali, o hematoma na órbita do olho direito mostrava recentes sinais de violência. Estava descabelada e vestida com trajes velhos. Cerrou a porta atrás de si, surpresa e assustada.

- Quem está aí, sua cadela... - Uma voz grosseira cortou o silêncio.

Lucas ficou pelo lado de fora, furioso.

Uma visinha passou com algumas sacolas de supermercado, e cumprimentou o rapaz apenas com um olhar e um gesto, entrando para seu quarto em seguida e cerrando a porta. Aquele lugar sempre fora assim, nenhum vizinho se intrometia nos problemas do outro, para poderem conviver em paz. E quando se tratava de Jarbas, o padrasto de Lucas, isso tinha um agravante ainda maior, por ele ser alcoólatra e extremante violento.

O garoto levou a mão à maçaneta...

"O que estou fazendo aqui". - Pensou.

Ensaiou uns passos para ir embora. Voltou atrás.

"Preciso resolver isso de uma vez por todas". Falou para si mesmo.

Ficou outra vez em frente a porta, respirou fundo. Sentiu um calor no corpo, iniciando um processo que já conhecia muito bem. Os olhos ficaram vermelhos e os caninos proeminentes. Em poucos segundos abriu a porta e se colocou dentro do quarto, fechando a mesma atrás de si com uma rapidez assustadora.

Jarbas segurava com força o braço da mulher, a quem agredia. Outras três crianças encontravam-se encolhidas e assustadas em um canto qualquer do muquifo.

- Larga ela. - Lucas gritou em um tom ameaçador.

O homem encarou o garoto sem reconhecê-lo a princípio. Estava apenas com um shorts velho e uma havaiana azul nos pés. Era um homem robusto e de traços fortes. Não necessariamente feio.

- Quem é ele, seu novo macho? - Gritou olhando nos olhos da mulher e jogando-a ao chão com violência. - Pronto já larguei... Vai fazer o que agora seu filho da puta...

A coitada desmaiou com o golpe, as crianças se aglomeraram sobre ela desesperadas e aos prantos.

Lucas se precipitou em direção ao agressor, segurando-o pelo pescoço, deixando o mesmo imobilizado.

- Não está me reconhecendo, traste... - Largou o outro ao chão.

- Você?! - Falou, tentando puxar o fôlego.

O vampiro pegou o homem pelos cabelos e o arrastou para o lado de fora do quarto, passou pelo corredor do lugar e se trancou no banheiro comunitário com a presa. Levantou o imbecil pelos colarinhos e o encarou nos olhos.

- A casa caiu, vagabundo!

Jarbas cuspiu no rosto de Lucas.

- Vai fazer o que comigo, franguinho!

- Te mandar para o inferno, seu lixo...

Com um golpe preciso  quebrou o pescoço do padrasto. O infeliz se debateu no chão até a morte.

- Não vou sujar meu corpo com seu sangue imundo. - Saiu do banheiro e deixou o homem morto, jogado no chão.

Deparou-se de frente com a mulher que chorava e com as três crianças assustadas no corredor.

- Acabou! - Disse sêco, olhando a mãe nos olhos. - Diga pra polícia que ele tinha dividas com os traficantes e eles vieram cobrar. Agora você está livre.

Saiu imediatamente para a rua, sumindo do campo de visão da mulher e das crianças.  Ouviu um grito às suas costas.

- Aquele maldito te levou para o lado dele...

Seria a ultima vez que ouviria a voz de sua mãe. Mesmo assim, não exitou. Continuou seu caminho. Não tinha mais nada a fazer ali, não pertencia mais aquele universo.

Ficou por um tempo, convivendo com um grupo de ‘eternos’ da sua faixa etária. Mas Lucas era inquieto, sua vivência de rua, não permitia certos apegos.

 

 

 

 

- Trouxe o que você me pediu, pelo seu último trabalhinho sujo... - Abriu a valiza cheia de dinheiro, colocando-a sobre a mesa. - Não sei para que, você precisa acumular tanto dinheiro...

- Tenho uma vida longa pela frente meu caro. Dinheiro nunca é demais! - Respondeu Calebe com um sorriso de deboche.

- Muito bem, qual vai ser o próximo covil que vamos atacar? - Perguntou Baruck curioso.

- Existe um grupo de eternos que se reúne em um clube noturno próximo daqui. O grande problema é que o lugar, também é frequentado pelos "primatas". - Era assim que chamava os humanos. - Temos que pegá-los, quando saírem.

- É só me dar o endereço, o resto deixa comigo e com os meus parceiros...

- Quero só ver o que os seus parsas diriam, se descobrissem que você tem a ajuda de um vampiro, para descobrir os covis.

- Minha parte é a mais complicada do grupo, toda ajuda para mim é bem vinda. E tem mais, você não levanta suspeitas prévias. Seus semelhantes também não ficariam nada contentes, se soubessem que você os entrega de bandeja para nós.

- Somos úteis um ao outro... Bem, aqui está o endereço.

Os dois se levantaram. Entregou um envelope tipo carta na mão do anjo.

Baruck levantou-se e se retirou do lugar, sem maiores despedidas. Afinal eram comparsas, mas não eram amigos definitivamente. Quando aquele imbecil se tornasse um estorvo para ele, passaria sua espada no pescoço dele, sem pensar meia vez.

Baruck ficou sozinho em sua sala novamente, pensando em como permitia deixar aquele renegado entrar em seu ambiente. Sabia que na primeira oportunidade o outro o mandaria para o inferno. Não podia confiar naquele cretino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo Três.

 

 

 

 

Hannah estava no auge dos seus cinquenta anos de idade. Era uma mulher bonita, pele branca, cabelos curtos, negros e lisos, olhos azuis e dona de um espírito guerreiro. Gostava de acentuar seu bom gosto e sua elegância sem exageros, com as roupas caras de griffes famosas que gostava de vestir.

Levantou-se naquela manhã um pouco cansada. Sua vida entrara em uma rotina desanimadora, desde que o filho sofrera aquele maldito acidente de carro, que o colocara em estado de coma a três semanas.

Financeiramente, tinha uma vida estável. Filha de irlandeses que se consolidaram no Brasil com empresas no ramo da alimentação, chegou ao país com apenas três anos de idade.  Entre todas as coisas que herdara da família, estavam inclusos, imóveis na região da Avenida Angélica com a rua da Consolação, aos quais alugava. Casou-se com Muriel, aos dezoito, contrariando a vontade dos pais que achavam a principio que ele não passava de um aventureiro sem destino certo, com quem vivera muito feliz até o dia em que ele faleceu de forma misteriosa em uma chácara que possuíam na cidade de Ivinhema no Mato Grosso do Sul.  Para ele esse pequeno pedaço de chão servia como um refúgio. Era uma espécie de lugar sagrado onde costumava ir, às vezes com a família ou às vezes apenas para curtir momentos de solidão. Em uma dessas viagens, de forma inexplicável, seu corpo foi encontrado morto próximo a um caudaloso pé de mangas, onde tinha o hábito de ficar por horas desfrutando de sua sombra generosa e observando os céus.

O fato foi cercado de mistérios e sem uma definição lógica para o ocorrido, da mesma forma que após a necropsia não foi constatado uma morte por causas naturais, também não se provou nenhum ato violento que levasse a acreditar em assassinato ou suicídio. Os legistas nunca conseguiram explicar de forma técnica a ausência do coração de sua composição física, sem a presença de nenhum tipo de orifício ou cicatriz que justificasse tal ato. Para a família, simplesmente, qualquer tipo de explicação lógica ou não, não o trariam de volta. Daquele dia em diante nunca mais voltaram naquele lugar. Ela achou por bem deixá-lo aos cuidados de um funcionário que se encarregaria de mantê-lo em bom estado de conservação. Mas também não o venderia. Como havia prometido ao marido antes dele falecer.

Hannah e Muriel tiveram dois filhos. Sophia, a mais nova, era uma bela jovem. Alta, branca, cabelos loiros acinzentados, longos e encaracolados, como os do pai, olhos esverdeados e lábios vermelhos e carnudos. Formada em moda pela FAAP, era dona de uma pequena botique especializada em roupas personalizadas, que ficava na região onde morava. 

O filho mais velho era veterinário, jovem, bonito, cheio de vivacidade. Adorava os animais, principalmente os equinos, sua especialização na faculdade. Por um capricho do destino, estava preso a um leito de hospital.

O trajeto do apartamento até o hospital, naquele dia, parecia mais longo do que o de costume, talvez estivesse mais ansiosa, mais apreensiva...

Ficaram em silêncio, não trocaram uma palavra até descerem do veículo.

- Estou te sentindo mais triste do que o normal, hoje! - Questionou a filha, quebrando o silêncio.

- Não é nada, minha linda! Só um aperto no coração.

- Sei... Tudo bem se não quer me falar... - Acariciou a mãe no ombro e entraram no prédio do hospital.

As paredes em tons de branco gêlo, a mobília específica e os aparelhos de última geração, devidamente distribuidos pelo ambiente. Resaltavam o clima frio de uma UTI.

Os poucos minutos de visita, deveriam ser bem aproveitados pelos familiares. Era o único contato que teriam com seus entequeridos, durante todo dia. Ao término, o boletim médico, sempre em um tom extremamente profissional, cheio de linguagens próprias, parecia fazer parte de um ritual.

Hannah olhou para o filho calada. Abraçou sua Sophia, como quem quer um pouco de energia da outra. Uma lágrima solitária e silenciosa desceu em seu rosto. Sentiu o afago da outra, trazendo-lhe um pouco de força para a alma fraguimentada.  

 Hannah não conseguia entender  porque seu menino tão cheio de vida estava ali, preso naquele leito de hospital.

A única notícia boa do dia era que, haviam vencido o foco infeccioso da semana passada, conforme o boletim do Dr. Kalil. Mas aquela batalha estava longe de terminar.

 

 

 

 

Agnus estava sentado sobre uma pedra, observando o pôr-do-sol, gostava daquele lugar em particular. O Morro do Paramambuco em Itanhaém, litoral sul de São Paulo. Combinava com sua solidão. De onde estava posicionado, podia ver boa parte da cidade a direita e a sua esquerda o mar esverdeado enchiam sua visão de beleza.

O Sol tingia o céu em tons avermelhados e descia soberano, escondendo-se na linha do horizonte, parecia ser engolido pelo mar, não menos soberano que ele.

O silêncio foi cortado pelo som de motor de uma moto.

- Te encontrei, até que enfim... - Uma voz jovem falou, descendo do veículo e se aproximando.

- Você... - Ficou admirado com a figura à sua frente, ficando de pés.

- Demorei, mas te encontrei. Me disseram que te acharia aqui...

- Quem?

- Os eternos.

- Os vampiros... São uns intrometidos.

Lucas não respondeu. Não estava ali para discutir a opinião de Agnus sobre os eternos.

- Diga logo a que veio garoto.

- Quero saber algumas respostas...

- Não procure respostas para o destino... Aproveite o privilégio da vida eterna! 

- Isso não é um privilégio, é uma maldição! Preciso roubar a vida dos outros para manter a minha.

- Que diferença temos dos humanos, eles fazem coisas muito piores pela sobrevivência. Pelo menos nós não sugamos os de nossa espécie.

- Nós fomos humanos um dia, lembrasse disso ou não? Bem, isso não importa. Quero saber o que fazer para voltar a ser como antes.

Agnus o encarou nos olhos, com aquele olhar gelado de sempre.

- Não existe retorno, meu caro! Estamos condenados a viver por toda eternidade se alimentando da alma humana. - Virou-se de costas para Lucas. - Por que perdeu seu tempo vindo até aqui... Os outros te dariam a mesma resposta. Não veio até aqui só por causa disso... Ah! E respondendo sua pergunta. Não, não me lembro mais de algum dia ter sido humano, já fazem muitos séculos...

O garoto nada respondeu.

- Do que está arrependido? - Se distanciou alguns passos a frente. - Olhe para você, está muito melhor agora do que quando te encontrei jogado naquele lixo de mundo em que vivia! Ficou até mais belo, mais forte...

- Nada disso me importa seu maldito! Quero saber por que me escolheu.

- Digamos que estava de bom humor naquele dia, e que também já estava farto de sangue, já que havia sugado aqueles mendigos fedorentos que te faziam companhia...

-  Mas algo me diz que não é só isso. Você está escondendo alguma outra coisa.

- Não tenho nada a esconder de ninguém, muito menos de você moleque... - Respondeu com deboche.

Dessa vez foi Lucas quem o encarou nos olhos.

-  Será... - Deu uma pausa enigmática e falou em seguida. - "Helena".

- O que disse? - Perguntou admirado e esquivando-se do outro.

-  Falei o nome da minha mãe. “He-le-na”. Foi isso o que disse...

- Que espécie de joguete é esse, meu caro? Onde você está querendo levar esta conversa?

- Aonde podemos chegar com ela? - Indagou Lucas.

- Helena, é um espírito errante. Suas escolhas tortas na vida é que a fazem ser infeliz!- Por algum décimo de segundo pareceu que seu coração fora tocado.

- Desde quando conhece minha, mãe?

- Eu disse que a conhecia? - Perguntou irônico.

Falando isso, abriu as asas e se precipitou sobre o penhasco à frente. O Sol se pôs ao longe e as primeiras luzes noturnas dominaram o horizonte. Segundos depois, Lucas viu a figura alada de Agnus, distante, passando em frente a lua cheia. Que tingida pela luz do sol, estava vermelha como sangue.

- Covarde! - Gritou com raiva. - Até quando vai fugir.

 

 

 

 

Grummer, o elfo, estava diferente naquele dia, talvez um pouco agitado demais, falante demais, ansioso demais... Entrou nos aposentos de Enzo com pressa.

Enzo acordou assustado e um tanto atordoado, fora tomado de surpresa àquela hora da noite.

- O que quer a essa hora, Grummer? O que você tem? Parece preocupado? – Falou sentando-se na cama.

- Não faça perguntas, apenas me siga, precisamos sair de Galmatama urgente, são ordens de Aileen. Sua vida corre perigo. Vista-se depressa e pegue algumas mudas de roupa, vamos para longe.

- Para onde vamos a essa hora...

- Já disse, chega de perguntas e me segue.

- Chega Grummer, se não me disser o que está acontecendo, não vou a lugar nenhum com você. Estou cansado de não poder fazer perguntas, desses mistérios de vocês todos. Chega, não vou sair daqui se não me contar o que está acontecendo.

- Tudo bem, mas não temos muito tempo. Descobriram que você está aqui, Galmatama pode ser invadida e sua vida corre perigo. Nossa missão é proteger sua vida, e nesse momento aqui não é um lugar muito seguro para você. Aileen quer que tire você daqui com segurança e o mais rápido possível.

- Ótimo, não saio daqui sem antes falar com Aileen. Minha vida não é um joguete. E tem mais, não disse que Galmatama corria perigo de invasão antes, por quê?

- Chega garoto. A ordem é tirar você daqui agora. - Falou imperativo o impostor.

- Beleza. - Respondeu Enzo, com um mau humor explicito na voz.

Saíram na escuridão da noite, passaram por algumas ruas estreitas em direção a algum canto remoto da cidade, onde não fossem vigiados pelas sentinelas. Ben-Shakar conhecia muito bem o mapa daquela cidade, afinal de contas, havia construído junto com os anjos antes de sua rebelião contra os Elohins, a única parte que não conhecia, era a cidade subterrânea, construída muito tempo depois pelos elfos. Entraram em um pequeno beco escuro e sem saída e se depararam com uma parte da muralha que fazia limite com o deserto.  Pararam diante do obstáculo. Enzo ficou apenas observando qual seria a atitude do falso elfo diante daquela situação. Grummer ou Ben-Shakar, por sua vez encostou as duas mãos ao muro, cerrou os olhos e começou a pronunciar algumas palavras que o outro não conseguia entender. Minutos depois um pequeno ponto de luz apareceu na parede tornado-se, nos poucos segundos subsequentes uma fenda que cabia perfeitamente uma pessoa adulta. O falso elfo olhou para Enzo, indicando que deveriam transpassar aquela abertura.

- Posso saber qual nosso destino, pelo menos. Ou isso também eu não posso saber? – Perguntou.

- Claro que sim. Estamos indo para o Egito. – Escondeu um sorriso sinistro que se projetou em seus lábios.

- Para onde? - Perguntou surpreso.

- Para a terra dos Faraós. Imagino que já tenha escutado alguma coisa a respeito.

"Isso está ficando cada vez mais interessante. Só está faltando eu ter que encarar uma múmia". - Pensou.

Passaram pela fenda, saindo no deserto de Ramara. A noite estava escura e Bem-Shakar acendeu duas tochas, entregando uma para Enzo. A fenda fechou-se momentos após eles a ultrapassarem.

- Vamos meu caro. A partir de hoje você terá muitas respostas. Aqui começa a sua verdadeira jornada.

Enzo não respondeu. Estava absorvido em seus pensamentos e cheio de tantas parábolas e frases feitas. Vestia uma túnica de algodão branca que ia até a altura dos joelhos, uma calça do mesmo tecido, calçava um par de sandálias rasteiras de couro. Carregava também um alforje a tiracolo, onde trazia uma peça de roupa a mais.

Caminharam por algumas horas e encontraram uma caverna onde Ben-Shakar decidiu que deveriam passar aquela noite, até as primeiras luzes da alvorada.

 

 

 

 

O filho de Marjova e Loster nasceu saudável e robusto, era uma criança linda, uma mistura perfeita dos dois. A pele era em tom de ébano, o formato do rosto quadrado e os olhos verdes. Era um bebê gordinho cheio daquelas curvinhas tão peculiares às crianças recém-nascidas.

Durante os primeiros seis meses de vida, sua evolução foi como o de uma criança humana normal. No entanto, do sétimo mês em diante, começou a apresentar dotes incomuns a uma criança de sua faixa etária. Na parte fisica, sua evolução transcorria normalmente. Porém, seu intelecto se desenvolvia assustadoramente. Desenvolveu a fala com muita facilidade e fluência de uma forma impressionante. Absorvia o universo a sua volta e tinha sede de conhecimento. Pouco antes de completar seu primeiro ano de vida, já havia lido praticamente todos os livros da biblioteca particular de Saredh.

Quando o viu pela primeira vez, Lilith o chamou de Abner. E esse ficou sendo o seu nome.

Alguém bateu à porta do escritório. Era uma sala de tamanho médio, com móveis modernos e bem distribuidos, paredes em tons pastéis, quadros e obras de arte dos mais variados artistas plásticos. Na parede central, um painel em preto e branco com a foto de: Lilith, Jade e Saredh vestidos com roupas da idade média.

 Lilith estava sentada em uma poltrona cor de prata, que ficava posicionada por trás da escrivaninha de vidro temperado.

- Entre. - Disse a vampira. – Estava soberana como sempre, vestida com uma camisa de seda branca de mangas longas, uma saia azul marinho até a altura dos joelhos, sapatos de saltos médios e pretos. Os cabelos estavam presos em forma de coque com alguns fios que caiam sobre as laterais do rosto.

Marjova entrou na sala. – Vestia-se de forma despojada.

- Me chamou? – Perguntou curiosa.

- Sim! Sente-se por favor!

As poltronas eram coloridas e confeccionadas em couro, distribuidas em posições estratégicas pelo ambiente. Marjova sentou-se em uma delas, ficando de frente para a outra.

- Vou ser objetiva, Marjova. Como de costume... Vou direto ao ponto.

A outra respondeu em silêncio, apenas com um gesto afirmativo com a cabeça.

- Não vou permitir que vá embora daqui. Quero que fique. Bem... Quero não, queremos. Eu, Saredh e Jade decidimos que não vamos deixa-los ir.

- Mas... - A outra começou a ensaiar uma frase, meio sem jeito.

- Nem mais, nem menos, Marjova. Vocês ficam. Já imaginou o risco que correriam com uma criança especial como o Abner. Seriam presas fáceis para os malditos "guardiões". Não podemos deixar correr esse risco. Além do mais, já provaram para nós que são de total confiança.

- Não sei como agradecer, Lilith. – Falou sem jeito.

- Não agradeça, não há necessidade. Apenas fique. Isso vai me deixar muito feliz. E tem mais, o Saredh não saberia mais viver sem o Abner, ele tem planos especiais para ele.

- É eu sei, ele ama o meu filho.

- O Saredh é o meu escudo, meu porto-seguro. É um "eterno" sábio, sensato...  Colocou um pouco de equilibrio em meu temperamento inconsequente. Nunca conheci pessoa tão fiel e tão dedicada. Vai ser uma influência muito boa para o nosso pequeno príncipe. A Jade também. Eu a amei desde que dançamos juntas pela primeira vez, quando nos conhecemos na Roma Antiga. É por causa dessa nossa união que sobrevivemos até os dias de hoje. Agora quero que você e sua família, façam parte disso.

Marjova não respondeu mais nada, apenas concordou.

Lilith levantou-se, as duas abraçam-se emocionadas.

 

 

 

 

Saíram da caverna quando o sol tingia o dia com suas primeiras luzes. Um campo enorme de areia a frente. Era o deserto. Em pouco espaço de tempo, ultrapassaram o ‘portal de luz’. Uma espécie de porta energética que liga Galmatama,o mundo dos anjos e dos espíritos, ao mundo físico. Apenas os Elhonis, anjos e elfos tinham o poder de abrir o ‘portal’, ele dava acesso ao mundo físico e era atemporal, ou seja, poderia ser aberto em qualquer época ou lugar, conforme o desejo de quem o abrisse.

Enzo jogou-se no chão, exausto.

- Chega seu obstinado, não aguento mais.

- Tudo bem, pode descansar um pouco. Eles vão demorar um pouco para chegar mesmo.

Enzo nem deu ouvidos a frase do outro. Adormeceu.

"Mal sabe o que te espera". - Pensou Ben-Shakar.

Na linha do horizonte, surge uma caravana de beduínos, mercadores de escravos. O elfo deixou Enzo deitado no chão a uma boa distância e aproximou-se da comitiva. Um homem alto, pele queimada pelo sol, corpo robusto e marcado por cicatrizes e tatuagens, desmonta de seu camelo e aproxima-se de Grummer. Veste uma espécie de calça com tecido grosso escuro e o dorso nu exposto, na orelha direita uma argola de ouro fazia sua figura parecer um cigano, na cabeça um turbante colorido que descia até a altura do pescoço e do lado esquerdo, um bornal de couro onde carregava água.

- Hora, hora. O que temos aqui. Um elfo! A que devo a honra, nobre cavalheiro?!

- Não me venha com seus deboches, imbecil. Sabe muito bem quem eu sou.

- Como não? O grande príncipe! O que manda dessa vez, Ben-Shakar?

- Trouxe uma ameaça. Leve-o para bem longe daqui. Venda-o pelo preço que quiser, apesar de achar que não valha muita coisa.

A imagem do falso elfo foi se desfocando até desaparecer por completo.

Karan aproximou-se de Enzo que ainda se encontrava deitado no chão, absorvido pelo cansaço. Pegou seu bornal de couro, abriu e jogou um pouco de água no rosto do rapaz.

- Hora de acordar! - Gritou.

O coração de Enzo acelerou com uma descarga enorme de adrenalina.

- Quem são vocês? - Perguntou assustado. - Onde está Grummer? - Sentou-se no chão meio atordoado.

Sentiu a mão pesada de Karan em seu rosto.

- Cale-se! Seu "amigo" elfo te vendeu por miseras moedas de prata. Agora eu sou seu dono... Permita-me apresentar-me. Sou Karan, seu pesadelo. – Soltou uma gargalhada sarcástica.

Enzo se precipitou contra o mercador, em uma tentativa inútil de se defender. Os outros comparsas se juntaram e o deteram. Dois deles, um de cada lado, continham o rapaz que se debatia em fúria.

"Fora traído por aqueles seres de orelhas pontudas". - Pensou.

- Amarrem esse imbecil, vamos vede-lo no mercado de escravos do Egito.

Enzo, entre os dois cupinchas de Karan, estava de cabeça baixa. O homem o pegou pelos cabelos e aproximou seu rosto ao do rapaz.

- Eles são uns pulhas, não gostam de nós humanos. Acham-se superiores. Mas veja só o que um deles foi capaz de fazer com você... Pensa que os outros são diferentes? Estão lá, em Galmatama, murados em seu próprio egoísmo.

Enzo encarou o homem nos olhos e reuniu toda raiva de sua alma, puxou saliva misturada com escarro e sangue e cuspiu no rosto do seu algóz. Karan limpou o rosto e passou a sujeira na roupa de Enzo. Em seguida deu um soco no estômago do rapaz.

- Vamos embora, já perdemos muito tempo com esse frangote.

Amarraram Enzo a uma fila de outros escravos e seguiram em comitiva. Ben-Shakar observava em pés e de longe eles sumirem na linha do horizonte.

 

 

 

 

A linha da frequência cardíaca do monitor ficou completamente em iso, dando sinal a uma parada cardíaca. O alarme começou a dar bips ininterruptos.

A equipe médica e de enfermagem começou com os procedimentos padrões com uma precisão profissional tão eficiente, que tiraram de imediato da parada o paciente do leito seis. Era jovem e tinha uma vida inteira pela frente. Não fosse aquela situação em que se encontrava.

A técnica de enfermagem, Noemi, terminou sozinha de organizar o boxe onde se encontrava o paciente. Olhou para o monitor cardíaco, dessa vez com um pouco mais de tranquilidade e com aquela sensação de missão cumprida. As linhas cardíacas se movimentavam em ritmo sinusal e equilibrado. Arrumou o lençol sobre o rapaz e apagou a luz que ficava sobre o leito. Sentou-se no posto de enfermagem, um balcão em forma de ferradura que ficava no centro da UTI de onde podia se ter uma visão ampla de todos os pacientes. Começou a fazer suas anotações.

Era uma mulher nos seus quarenta anos de idade, dona de uma beleza comum, estatura baixa, um pouco acima do peso. Olhos castanhos e expressivos, cabelos negros e curtos. Mas, sua marca registrada era seu sorriso que iluminava e envolvia todos ao seu redor.

Passou o plantão as sete horas da manhã e foi para casa. Uma kitnet pequena, porém muito confortável na Rua da Consolação.

Morgana a recebeu com a alegria e a empolgação de sempre. Ela a pegou no colo e fez um afago em sua cabeça branca e peluda, era sua gata, sua única companheira e amiga de todos os dias. Tinha absoluta certeza de que nunca sofreria nenhum tipo de ingratidão por parte dela.

Depois de um merecido banho, vestiu seu confortável pijama rosa de malha, tomou seu café da manhã e logo em seguida foi se deitar. Adormeceu em seguida. Esqueceu a TV ligada com o volume baixo como costumava fazer sempre. Morgana se aconchegou ao seu lado.

A sua frente observava o leito do rio passar lentamente com suas águas cristalinas. Estava acompanhada de uma mulher mais idosa. Estavam protegidas pelos altos juncos que ficavam a margem. Ela despiu-se de seus trajes e entrou no rio para banhar-se.

- Tenha cuidado princesa, a correnteza aqui está um pouco forte! - Disse uma das moças.

- Faço isso praticamente todos os dias, minha cara, e sempre me manda ter cuidados. Esqueceu que já não sou mais uma criança, Hapu! - Respondeu em tom de deboche.

- Simplesmente não quero que nada de mal lhe aconteça, princesa! O que diria ao Faraó se alguma coisa de ruim acontecesse com Vossa Alteza?  - Respondeu a ama.

Era uma mulher velha, porém carregava ainda os belos traços que tivera na juventude. Negra, alta, olhos grandes, vivos e castanhos. Usava colares coloridos no pescoço e brincos em forma argolas nas orelhas, suas roupas eram de algodão cru tingidos com rena colorida, na cabeça um belo turbante do mesmo material do vestido em tons coloridos e alegres, os pés descalços eram adornados nos calcanhares com duas finas correntes douradas. Cuidava de Karoma desde seu nascimento, fora sua ama de leite e depois com a morte da rainha, que entrou em uma depressão profunda após o desaparecimento do filho caçula, tornou-se uma espécie de mãe postiça. Para a princesa na verdade não era apenas uma simples ama, e sim, uma amiga e companheira por quem nutria um sentimento de amor materno.

- Não vai acontecer nada de ruim comigo. Os deuses do meu pai me protegem! – Falou sorrindo. – E além do mais se eles se esquecerem de desempenhar seu papel, tenho você ao meu lado.

- Sim. Só não esqueça que eu não sei nadar! – Retrucou Hapu.

- Seria até irônico eu morrer afogada no rio onde fui praticamente criada!

Hapu sorriu observando a garota que desapareceu em um mergulho.

Morgana miou inquieta como quem tivera levado algum tipo de susto. Noemi acordou um pouco desorientada. Sentou-se na cama, olhou ao redor. Estava de volta a sua entediante vida. Suspirou fundo.

- O que quer minha princesinha? - Perguntou carinhosamente para sua gata.

 "Era a única coisa que valia a pena. A companhia de Morgana". - Pensou.

A essa altura da vida, já havia se decepcionado com muita coisa.

Postagem em destaque

Trecho do livro: Os senhores das Sombras - O legado de Lilith.

Capítulo Um   Enzo   Ouvia vozes distantes e desconhecidas, sua consciência não permitia entender o que acontecia à sua volta....